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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

MAIS UM DEPOIMENTO DE UMA PROFESSORA WALDORF

Compartilho este precioso depoimento de uma Profª Waldorf que no exercício diário de  sua profissão é capaz de perceber a necessidade de renovação da prática pedagógica e da dinâmica do organismo escolar. Um olhar que merece atenção, reflexão e ação transformadora. Que não nos falte a coragem jamais.
Abraço fraterno
Ana Lúcia Machado


"Vejo a resenha do Dr. Valdemar Setzer como o primeiro passo de muitos que ainda vão acontecer no caminho de Clarear. Um movimento que pode vir a ser muito saudável, dependendo apenas de nós mesmos.
Temos que desconfiar de tudo onde há muita Simpatia ou Antipatia, temos que exercitar o pensar polar. Esses foram um dos meus primeiros ensinamentos na antroposofia.
Foram muito duras as colocações sobre o prefácio de Ruy César do Espírito Santo. Entendo que a mesma critica que se fez a ele; a falta de conhecimento suficiente da obra de Steiner; pode-se fazer de quem o fez sobre o próprio Ruy.
Meu encontro com o professor Ruy se deu no meu primeiro ano de faculdade de pedagogia, na Puc-sp. Ele continua sendo meu professor desde então, mesmo eu tendo graduado há alguns anos.
Não poderia eu aqui passar o Currículo lates do professor, mas posso falar algumas poucas coisas que sei. Ruy foi pai e avô Waldorf, tem hoje uma ou duas filhas atuantes na PW. É um grande semeador, e leva a PW em suas aulas, ele mostra a existência desta pedagogia para muitos futuros educadores, como uma possibilidade de se fazer melhor, de se fazer diferente, uma possibilidade de olhar o Ser Humano em nós e no outro, e mudar o mundo em que vivemos, de se fazer uma sociedade e uma pedagogia mais humana. Muitos destes futuros pedagogos despertam, procuram o seminário e se tornam professores Waldorf.
O conhecimento de Ruy é vasto, passando por muitos pensadores, e o mais lindo é a propriedade que ele tem da essência do Ser Humano. Ele não é, e nunca quis ser intitulado como grande conhecedor da pedagogia Waldorf ou da obra de Steiner, ele é um estudioso e um semeador do autoconhecimento, do despertar de consciência do Ser Humano. Ele leva isso com ele aonde ele vai, não se limitando a grupos, classes ou segmentos.
Certa vez fui ao encontro do professor Ruy, e pude com ele desabafar e contar o que estava acontecendo comigo, recém professora Waldorf. Neste dia ele me contou de Ana Lúcia, e me emprestou o “rascunho” do livro. Lembro-me de observarmos juntos, que mesmo dentro de um ambiente tão especial como o da PW, as pessoas estão dormentes.
Levei a apostila de Clarear para casa, e comecei a ler. Mesmo não conhecendo Ana, ou qualquer outro autor dos casos, tive a incrível sensação de ter vivenciado, presenciado ou escutado histórias semelhantes. Isso me deu a certeza de que esse era um livro para ler em nossas reuniões pedagógicas, e que a escola poderia crescer muito com ele.
Foi aí que entrei em contato com a Ana, que me recebeu com muito carinho. Nesta fase o livro ainda não estava editado, e a Ana ainda procurava quem pudesse fazer a introdução, a apresentação do livro. Ela estava procurando por quem pudesse ir além disso, orientar, direcionar o seu trabalho. Ela foi atrás de seus professores de formação, foi atrás de nomes respeitados por todos nós, e ninguém abriu o espaço que fosse para a discussão do tema. Os poucos feed backs que teve eram “entendo, vejo a questão, mas não quero me envolver”. E ninguém acolheu, ou viu a oportunidade de trabalhar as questões levantadas.
Uma pena não ter sido feito o contato com o Dr. Setzer, quem sabe essas questões não teriam tido outros encontros.
Como se pode debater essas questões se não há espaço para isso? Eu não sei dizer ao certo quantos anos demorou para Ana conseguir enfim editar o livro, mas foi bastante tempo. Tempo suficiente para haver manifestações de todos que entraram em contato com o livro.
Ruy César, interessado neste despertar viu, acredito eu, não uma situação isolada da PW, mas um problema da humanidade. Atualmente todas as escolas tem problemas, a educação em si é um caos, há muitos problemas nestas relações aluno /família /professor/ escola/ sociedade. Quantas pessoas poderiam ser despertadas com estes casos? Quantos professores poderão olhar para si mesmos e se identificar? Quantos orientadores, diretores de escola? Quantos pais podem perceber que podem sim fazer diferente? Ou simplesmente perceber que há lados diferentes nas questões, que podem perceber o outro?
Uma das perguntas que Ruy nos incentivaria a fazer é: Qual o sentindo disto? Cabe a cada um de nós se afastar das particularidades e tentar ver o todo.
Qual o sentido do livro Clarear?
Quais são as possibilidades que ele nos traz?
Depois disto, podemos voltar e ver as particularidades. É um exercício constante, e que do Dr. Setzer começou com sua resenha, já clareando e atingindo o objetivo do livro. Só obscurece àqueles que fecharem seus olhos.
É momento de não termos verdades aniquilantes, mas sim de olhar o outro, e juntos olharmos à todas as questões, mesmo aquelas que não julguemos pertinentes, pois estas podem ser muito esclarecedoras para outras pessoas. Isso sim é incluir".











sábado, 27 de agosto de 2011

A surpreendente simplicidade de Paulo Freire

Estarei imersa  em Paulo Freire esta semana, me preparando para uma apresentação sexta-feira na UniÍtalo. E já comecei lendo algo que me encantou.Questionado sobre qual a qualidade que considerava fundamental num educador, a resposta de Paulo Freire é de uma simplicidade surpreendente: "Gostar da vida".

Reverencio este grande educador e acredito que para reencantar a Educação, precisamos de professores reencantados com a vida! Capazes de se admirar com a beleza da natureza que nos rodeia e capazes de irradiar para seus alunos o brilho do olhar que este sentimento desperta.

abraço fraterno
Ana Lúcia Machado

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O MUNDO É BOM!

Sou grata a ciranda de minha infância que me deu a consciência de pertencimento, de fazer parte do todo e de estar ligada ao outro, ao da minha direita e ao da minha esquerda, e que também mostrou-me que “tudo o que for ligado na Terra, será da mesma forma ligado nos Céus” (S. Mateus 18:18).

Reverencio essa roda que com maestria prossegue trazendo em si a força do uno, do individual e igualmente carrega o ímpeto e o poder do todo, do ligamento e da interdependência existente entre os seres. Abençoadas sejam as cirandas infantis, que como  sementes se espalham e se depositam em solo novo e fértil; adormecidas parecem nada significar, porém em tempo certo manifestam-se como poderosa fonte de vida. Abençoadas sejam as rodas formadas por meninas e meninos que compõe um colorido diversificado e harmonioso.

Feliz a criança que em sua infância pode fazer parte de uma ciranda e entoar as cantigas de rodas que a marcará para sempre. Enquanto se formarem cirandas nos quintais das casas, nos pátios de escolas, em praças e parques; enquanto crianças derem-se as mãos em grandes ou pequenos círculos, haverá a confiança de que o mundo é bom, e a esperança de transformação do ser humano e de suas relações.

À essa ciranda devo o sentimento de valorização de minha própria existência e o de respeito ao outro. Respeito aos meus pais, meus irmãos, respeito à todos que mesmo de passagem deixaram uma marca indelével em minha história. Profundo respeito aos meus mestres que me ensinaram o mistério oculto em cada ser vivente e a nossa total interligação e interdependência na sustentação da vida. À todos esses mestres minha eterna gratidão.

Carrego em mim a ESPERANÇA de um mundo bom, justo e verdadeiro, e a responsabilidade de revelá-lo às novas gerações através desta lente. Este é nosso dever enquanto pais e educadores, este é o dever da NOVA ESCOLA, com a qual eu sonho todas as noites.

Apresentemos à criança um mundo BOM para que ela adquira autoconfiança e possa ter fé na humanidade e em suas infinitas possibilidades. Proporcionemos à elas vivências que suscitem gratidão pela VIDA. Criemos um ÚTERO EMOCIONAL para essa criança recém chegada a este mundo com o intuito de preservá-la e protegê-la durante a primeira infância até que possa caminhar com confiança.

"A infância não é uma coisa que morre em nós e seca uma vez cumprido o seu ciclo. Não é uma lembraça. É o mais vivo dos tesouros e continua a nos enriquecer sem que o saibamos." (Franz Hellens)

Abraço fraterno
Gratidão eterna
Ana Lúcia Machado

terça-feira, 2 de agosto de 2011

TEMPO DE TREVAS NA EDUCAÇÃO


TEMPO DE TREVAS NA EDUCAÇÃO

A educação está em CRISE, e não é de hoje, assim como a humanidade e a natureza também estão. Vivemos uma fase de transição, porém percebemos prenúncio do novo. Algo está ganhando forma.
Hoje sou mãe de adolescente que cursa o Ensino Médio e sinto a angústia da falta de sentido da escola para os jovens. A escola  precisa se reinventar. A escola atual não compreende mais o ser humano que está diante dela, não sabe se comunicar com a nova geração. Não consegue mais, repetindo as mesmas fórmulas, transmitir a beleza que há no mundo.

Este vídeo é prova de que algo novo está chegando. Isso nos traz esperança. Ainda é noite, mas sabemos que o sol nascerá.

Há um texto de Ricardo Guimarães publicado na Revista Trip em 2005 que faz referência a um momento político brasileiro, que traduz muito bem os sentimentos vivenciados nessa fase sombria de transição na Educação:

"A consciência é como luz que mostra a realidade como ela é. Isso é bom.(...)
Esse processo de mudança - de um ambiente de luz e sombra para um ambiente de luz - é desorganizador da sociedade porque todos os combinados feitos na sombra perdem valor. Pelo contrário, passam a destruir valor quando vem à tona.(...)

Num primeiro momento, o sentimento é de indignação, mas aos poucos o medo e a desesperança, alimentados pelo tanto de sombra que existe em cada um de nós, podem tomar conta.

Para não perder a esperança, seria bom olhar para esse processo como um momento épico de transformação da sociedade e não como um episódio de decepção (...)

É melhor reconhecer que a mudança é cultural e coletiva, por isso profunda. Que vai ter muito desarranjo e sofrimento antes que surjam claramente os sintomas da saúde dos novos hábitos e costumes. Que vai piorar antes de melhorar.

Sem essa perspectiva de evolução e aprendizado para viver num ambiente com mais luz, o quadro atual é desesperador.(...)"

Conheça mais, acesse o Projeto Educação Proibida
 http://www.educacionprohibida.com.ar/

Abraço fraterno
Ana Lúcia Machado

quarta-feira, 20 de julho de 2011

O Impacto que causa um pai sobre seus filhos



A sabedoria divina fez com que a maior ferramenta a ser utilizada na educação dos filhos fosse o próprio exemplo de vida dos pais. Através da psicologia tantas pesquisas e estudos tentam indicar caminhos de sucesso na educação das crianças!!! Quantos livros ensinam segredos para os pais! Porém o mais eficaz e poderoso meio de educarmos nossos filhos é e sempre será através de nossas atitudes diárias. Deus é sábio e fez com que a autoeducação dos pais se tornasse o verdadeiro e único caminho para a educação dos filhos.
abraço fraterno
Ana Lúcia Machado

sexta-feira, 15 de julho de 2011

ESCOLA DE PAIS III

Já discutimos aqui a questão da superproteção aos filhos, a ausência da dor e da frustração na educação de crianças e jovens e as suas graves consequências. O texto a seguir reforça esse tema com total lucidez e objetividade. Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista. Tem uma coluna na revistaepoca.globo.com  às segundas-feiras.
Abraço fraterno
Ana Lúcia Machado

Eliane Brum
   Divulgação
Meu filho, você não merece nada
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI247981-15230,00.html

terça-feira, 5 de julho de 2011

Consumo e escola por Luciane Lucas dos Santos

Esse texto é da Professora universitária e pesquisadora Luciane Lucas dos Santos que convida a escola a assumir seu verdadeiro papel na sociedade - o de formação de indivíduos capazes de atuar socialmente. Luciane propõe uma reflexão sobre o consumo do ponto de vista pedagógico e aponta alternativas viáveis de atuação da escola nessa direção. É um texto profundo e instigante:


Serve o consumo para pensar?!: Consumo e escola:

A reflexão sobre o consumo no espaço da escola: 

representações e outros assuntos na sala de aula



Há algumas semanas aconteceu o primeiro chat de consumo do Instituto Alana. Não pude participar, mas fiquei pensando sobre o assunto, principalmente porque um dos pontos abordados foi a relação entre consumo e escola. Postei várias coisas no twitter pós-chat, mas queria compartilhar aqui algumas idéias.

O consumo não é um ato solitário. Isto quer dizer que ele não é tão individual como muitos de nós acreditamos. O coletivo tem papel importante nas decisões de consumo dos indivíduos, já que os sentidos em circulação nos bens são sociais. O consumo individual, portanto, tem, por trás dele, um olho coletivo. Como intervir, então, nas representações sociais hegemônicas - nas idéias dominantes de beleza, verdade, justiça, elegância, diferença etc?

Se os pais têm papel, em primeiro plano, nos hábitos de consumo dos filhos, a escola não ocupa um lugar menos importante. Deve debater e refletir sobre o mundo vivido, os valores em curso na sociedade, o resultado da disseminação destes valores. Isto não significa que ela deva ser responsabilizada isoladamente pelas idéias com que as crianças chegam em casa. É preciso entender que a escola é um microcosmo da vida em sociedade; nela, manifestam-se os vários "pensares". E é bom que esta interação aconteça. Por outro lado, a escola não deve eximir-se de seu papel por conta das orientações que o aluno recebe em casa. De novo: a escola é um microcosmo do mundo vivido, reunindo inevitavelmente muitos olhares e perspectivas. É importante que a escola estimule não só uma ponderação mais crítica da realidade, como também prepare os muitos "pensares" para maior justiça cognitiva. De modo geral, família e escola devem compartilhar o trabalho de reflexão sobre as transformações (desejáveis ou não) nos sentidos de infância/adolescência, como serem, ambas, espaço de estímulo para outras experiências de troca e consumo cultural.

No caso específico da escola, a discussão sobre o consumo deve ser mais profunda e não resumir-se a trazer o consumismo como tema de debate em uma ou outra aula. As veias internas do consumo como fenômeno social precisam ser expostas para que sejam estimuladas novas práticas na vida da criança / adolescente. É preciso, por exemplo, não apenas ensinar ciência, biologia, química, mas expor o discurso científico em sua pseudo-neutralidade. O modelo de produção que hoje referendamos, as tecnologias que empregamos, os avanços da tecnociência que aplaudimos têm efeitos no mundo concreto. Ainda assim e na contramão destes efeitos, a ciência é ensinada nas escolas como neutra, como a forma mais nobre de saber. Sempre como se outras formas de pensar o mundo fossem rigorosamente anacrônicas e sem valor. Parecemos ignorar que, por trás do discurso científico, hoje, subjaz um modelo de performance, de corpo, de vida, de limite.

É preciso expor, em aulas diversas, o apartheid social que resulta da transformação do espaço em mercadoria (a cidade não é pra todos, haja vista a distribuição dos equipamentos urbanos). Do mesmo modo, é preciso debater algumas representações dominantes nos livros escolares. Dizem que a escola tem que ser neutra. Ok. Mas sua aparente neutralidade faz circular conceitos de crescimento e desenvolvimento que se tornam  palavras de ordem. Quem questiona o que o crescimento implica e a quem se destina? Porque desenvolvimento é uma palavra a priori boa nos livros escolares?

Exemplos não faltam para levantar maiores reflexões. Enquanto cartilhas e livros enaltecem o agronegócio com o seu "crescimento para o país", nem sempre trazemos à superfície alguns saberes usualmente silenciados em aulas de História e Geografia (camponeses que trocam sementes para manter a diversidade biológica, a não divisão cultura x natureza pelos indígenas, os direitos de terra para os povos quilombolas). É preciso criar o respeito por outras culturas e ensinar que a diferença não é má, desde que ela possa manter como igual a condição de conversa. Um camponês não é residual no seu conhecimento em relaçãoà tecnologia do agronegócio. Esta hierarquia construída por uma imaginário tecnológico naturalizou-se entre nós. É preciso que a escola estimule ouvidos e olhos para as mundivisões.

A diferença deixa de ser fator de enriquecimento sempre que vira distinção social - uma das molas mestres do consumo. Se o consumo gera pertencimento e é hj um dos principais marcadores identitários, é preciso que a escola fomente com criatividade outros modos de construção e fortalecimento da identidade, que estimule outros modos de integração e reconhecimento de grupo. Circuitos diretos de troca podem ser uma saída criativa para redimensionar politicamente o valor das trocas na constituição da identidade. Podem, também, desatrelar o consumo cultural do aspecto monetário que hoje o inunda. Não seria oportuno que os professores estimulassem clubinhos de gibis, de saberes e habilidades? As possibilidades de troca entre os alunos podem ser múltiplas, ajudando a desconstruir a idéia de que o dinheiro seja a única mediação possível nas trocas. Neste sentido, descortinar outros rituais não-ocidentais de troca em aulas de geografia, sociologia, etnomatemática, pode ser útil para desmistificar a idéia de que formas de troca que não envolvam dinheiro sejam qualitativamente inferiores.

Debater, na escola, o consumo é também debater a descartabilidade que caracteriza o contemporâneo. Antes de incensar a reciclagem, é preciso fazer as crianças refletirem sobre o caráter dúbio da velocidade, da inovação, da criação de objetos novos em folha. Contar a história de Leônia pode ser um bom começo e uma boa metáfora. Cidade invisível de Ítalo Calvino, Leônia mostra o modo automático como nos viciamos na novidade, não percebendo mais os custos sociais e ambientais deste mundo permanentemente fresco e renovado. Conforme denomina Beatriz Sarlo, trata-se, hoje, de "colecionar atos de consumo". Neste sentido, seria bom que a escola investisse em soluções pedagógicas capazes de fazer ver o dia seguinte do nosso "enaltecimento ao descarte e inovação tecnológicos". Muitas são as formas de suscitar esta curiosidade e esta percepção: fotografar o que está no lixo, buscar saber que fim as pessoas dão aos seus celulares, investigar em que países vão parar os computadores velhos de que se desfazem, por exemplo.

Em suma, a reflexão sobre o consumo, do ponto de vista pedagógico, precisa ser redimensionada. Os excessos de consumo sempre preocupam os pais, é verdade. Mas o nó górdio do consumo é anterior. Tem a ver menos com a quantidade e mais com a própria natureza do consumo que legitimamos. O consumo é um sistema de classificação social, já nos tinha advertido, de formas diversas, Simmel e Veblen (no século XIX) e Bourdieu, mais recentemente. Logo, o debate sobre o consumo é, antes, um debate sobre os valores que o mercado dissemina e a que o espaço da escola, como parte do mundo vivido, não está imune.  Uma escola realmente preocupada com este tema deve introduzir questionamentos sadios nos diversos programas de aula (incluindo química, física, biologia, além das matérias de natureza "social"), além de criar situações (visitas, aulas na rua, fotografias, gravação in loco, produção de infográficos em sala etc), em que a criança/adolescente tome contato com a realidade resultante de um mundo que escalona pessoas pelo que têm.

domingo, 26 de junho de 2011

PROFESSORES: REFÉNS DE UM TEMPO TAREFEIRO?

“É o final de um período de ensino e faço a retrospectiva que deve ser, ao mesmo tempo, a base para preparar o que vem a seguir. Acumularam-se muitas questões não resolvidas. Sinto que a classe precisaria de um novo impulso. (...)
(...) Certos acontecimentos que se repetem entre as crianças desencadeiam em mim antipatias previsíveis e reações rotineiras. E sei muito bem que tudo isso leva a bloqueios, contraria meus ideais de educação. (...)
(...) Surgiram situações em que reagi de maneira inadequada porque estava cansado. Minhas forças esvaíram-se totalmente no preparo de uma matéria nova para mim, que me exigiu em demasia. Não será mais fácil durante a próxima época de História. Os livros já se amontoam em minha escrivaninha. (...)
(...) Enquanto leio o primeiro capítulo de uma obra de 300 páginas, logo percebo que ela pouco me ajudará para o ensino. Não obstante, continuo lutando enquanto o tempo se escoa, já sabendo que jamais conseguirei dar cabo da pilha de livros, apesar da certeza de que a obra decisiva se encontra ali na pilha. (...)
(...) Assumi minha tarefa com entusiasmo e idealismo, mas agora estou exausto... só estou reagindo às exigências externas e que, por isso, jamais consigo satisfazê-las.(...)"

O relato acima  é de autoria do Profº Heinz Zimmermann em sua obra Forças que impulsionam a educação”, porém poderia ser o desabafo da maioria dos professores atuais. Nesse mesmo texto, mais adiante, o Profº Zimmermann conclui: “um professor assim é o oposto do que as crianças precisam”.  E como resultado de toda essa angústia, as seguintes perguntas são formuladas por ele:
- Como posso ganhar tempo?
- Como chego a ideias pedagógicas?
- Como supero minha falta de forças e de coragem?
O trabalho de um professor não se limita àquelas horas em sala de aula com os alunos. As atribuições e exigências  extras  o período de ministração de aulas são enormes:  desde a preparação das aulas em si, passando por tarefas burocráticas com preenchimento de formulários,  preparação de reuniões pedagógicas, reuniões de pais, correções de cadernos de alunos, organização de exposições pedagógicas e eventos culturais do calendário anual escolar, elaboração e correção de provas, e muito mais. Com tantas tarefas a executar e prazos a cumprir, o tempo tende a comprimir, pressionar até a exaustão, provocando sobrecarga, desgaste e até mesmo o adoecimento do professor.
Existe nesse fazer contínuo, a tendência a uma cegueira quanto ao que é essencial. Corre-se o risco de uma escravidão do fazer, que resulta em ações automáticas, como uma máquina. É o fazer pelo fazer sem um sentido real, desprovido de consciência.
O que leva a escravidão do fazer?
Quando rompemos a ligação existente do fazer com o ser, geramos ações desconexas, desintegradas de nós mesmos. Aquilo que somos não está mais presente na ação.
As energias se esgotam ao executarmos tarefas sem a inteireza do ser, sem o devido foco no aqui e agora.  Existe a tendência de nos fragmentarmos entre um tempo que já passou, num lamento ou nostalgia, e entre um tempo que ainda está por vir, onde projetamos nossas expectativas, sem sabermos que o único tempo que nos pertence onde podemos verdadeiramente atuar, é o tempo presente.
A falta de presença, de participação ativa nesse único tempo que nos é dado, impede o acesso a fontes de energia, pois o tempo sem o devido preenchimento de nossa consciência, interesse e envolvimento, escorre improdutivamente e mina nossas forças.
O que dá sentido ao fazer humano é seu trabalho autoral, de natureza criadora, criativa, que só pode se manifestar a partir do interesse, entusiasmo e paixão por aquilo que fazemos. Somente quando atuamos com interesse e inteireza, podemos ser capazes de insights – ideias inspiradoras – que auxiliarão na prática pedagógica.
Portanto dois pontos precisam ser revistos com maior rigor: o primeiro de natureza mais técnica, exige a capacitação do lidar com o tempo por meio da organização, planejamento e discernimento das prioridades diante das exigências. Esse tempo é o tempo do relógio.  Nesse aspecto a disciplina é da maior importância para o cultivo de uma relação saudável com o tempo tendo como objetivo produzir resultados satisfatórios. Porém necessitamos compreender também a existência do nosso tempo interior, que abriga nosso estado de espírito. Se entediados, o tempo passa devagar, se ansiosos, mais rápido, e se atentos ao presente, não vemos o tempo passar. O escritor Raduan Nassar em seu romance "Lavoura  Arcaica" discorre sobre essa relação tão delicada do homem com o tempo dizendo que:  “O equilíbrio da vida está essencialmente nesse bem supremo,  e quem souber com acerto a quantidade de vagar ou de espera que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco ao buscar por elas e defrontar-se com o que não é. Pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas”.
O segundo ponto, requer uma análise mais apurada sobre a metamorfose da vontade humana geradora de nossas ações. Da ação instintiva (da qual o animal compartilha com o homem) à ação resoluta, há níveis que vão se elevando à medida que a consciência aumenta.  Quando ajo sem nenhuma consciência, estou sendo levado por meus instintos. Ainda distante de minha consciência, há o agir impulsivo. Chamo de aspiração, quando minha ação ainda não é motivada por uma direção específica. A partir de um comprometimento, segue minha intenção um pouco mais direcionada. E com a intensificação do meu compromisso, alcanço a resolução: a decisão de agir com uma direção determinada, específica que conduzirá à realização, à ação em si, plena de consciência. Quando faço algo motivado pelo mais elevado nível da vontade humana, essa ação está totalmente integrada ao ser, é de domínio do ser.  Torna-se portanto um fazer autêntico, imbuído de sentido e entusiasmo, vemos então uma total integração do fazer ao ser.
Existe uma fonte renovadora de nossas energias. Ela pode ser encontrada nas pausas, na vivência do vazio e do silêncio penetrante, amoroso e absoluto. O silêncio se encontra entre os intervalos de nossa  inspiração e expiração. Nesse espaço de tempo  vivemos a experiência de UNIDADE capaz de nos conectar ao TODO.
Que a partir dessa reflexão haja a busca para a libertação desse tempo escravo do fazer. Aproveito para desejar a todos os Professores  boas férias.
Abraço fraterno
Ana Lúcia Machado

quarta-feira, 8 de junho de 2011

ESPIRITUALIDADE NA EDUCAÇÃO

Ao evocar lembranças do final dos anos 90, recordo o profundo sentimento de insatisfação em relação à minha vida profissional. A carreira de publicitária que abracei durante quase duas décadas passou então a não corresponder mais aos meus valores, e na busca por novos horizontes de atuação, meu coração pulsou forte pela área da Educação.
Após longa pesquisa descobri a Pedagogia Waldorf – primeira pedagogia que trouxe o trabalho do despertar da espiritualidade. Toda sua abordagem artística e o reconhecimento que somos seres espirituais passando por uma experiência material, me encantou, e foi então que deixei para trás uma carreira bem sucedida para alçar novos voos com o Curso de Formação de Professores da Pedagogia Waldorf.
Durante muito tempo ansiei que outras linhas pedagógicas despertassem para essa consciência espiritual, e qual não foi minha surpresa ao participar a semana passada da I Jornada Itinerante dos Grupos de Estudos e Pesquisa na Universidade UniÍtalo, com o tema O profundo despertar na Educação, que reuniu os grupos de estudos FIQUE, INTERESPE e GEPI, constatar que esse despertar já aconteceu.
Esses grupos tem a proposta de estudar e pesquisar a abertura da consciência para novos paradigmas na Educação, resgatar valores e a espiritualidade do ser. Propõe a sensibilização do olhar, a escuta atenta, a aceitação e compreensão da própria biografia para o caminho de autoconhecimento, como base do trabalho do educador na construção de um saber com significado.
Falar sobre espiritualidade dentro das Universidades é a prova de que vivemos um novo tempo e que existe esperança para as futuras gerações.
É o momento de derrubarmos barreiras filosóficas e nos unirmos para a troca de experiências que enriquecerão a todos e resultarão em escolas melhores.
Para saber mais sobre esses grupos acesse:
Abraço fraterno
Ana Lúcia Machado





quinta-feira, 26 de maio de 2011

CLAREAR CHEGA À BOTUCATU

A pedido da comunidade do Bairro Demétria, o livro "Clarear - a pedagogia Waldorf em debate" está disponível na lojinha da Demétria.

Localizado a 10 km da cidade de Botucatu - SP, o Bairro Demétria surgiu a partir do trabalho de agricultura biodinâmica iniciado na Estância Demétria em 1974.
O Bairro é hoje um complexo que envolve diversas iniciativas relacionadas com agricultura biodinâmica, agricultura orgânica, saúde, artes e educação, e seus condomínios residenciais abrigam cerca de 800 habitantes, provenientes das mais diferentes regiões do país e de diversas partes do mundo. Visite o site e conheça mais:
http://www.bairrodemetria.com.br/

Parabéns a essa comunidade por seu empreendedorismo e espírito de vanguarda. Temos muito o que aprender com eles.

abraço fraterno
Ana Lúcia Machado

quarta-feira, 18 de maio de 2011

ESCOLA DE PAIS II

Pela visão ampliada do Ser Humano fundamentada na Antroposofia, são  12  os sentidos do homem apresentados por Rudolf Steiner (1861-1925) em sua Teoria dos Sentidos:
Sentido do Tato, vital, movimento próprio ou cinestésico, sentido do olfato, paladar, visão, térmico ou do calor, e ainda da audição, palavra, pensamento e eu.
Para quem se interessar por esse tema e quiser conhecê-lo com maior profundidade, indico o livro “O organismo Sensório – sua perda e seu cultivo” de Willi Aeppli, pois aqui abordarei brevemente apenas um dos sentidos - o sentido vital -  que segundo Rudolf Steiner, é o sentido que permite a percepção do organismo como um todo e que é percebido pelo homem apenas quando algo nele não está em ordem em sua organização corpórea (mal estar). Para ressaltar um aspecto importante do sentido vital, apresento um texto extraído de um trabalho elaborado pela Dra. Sonia Setzer em 2000, que diz assim:
 “A dor nos fornece uma orientação na vida: se caímos de uma escada, aprendemos a tomar cuidado para não cair outra vez. Nossa cultura tem a tendência de querer eliminar a dor. Não permitimos mais às crianças sentir cansaço físico, que não deixa de ser um tipo de dor; elas andam apenas de automóvel e não mais a pé ou de bicicleta. Acontece que esse tipo de cansaço é muito saudável. A pior forma de cansaço é aquela causada pelo tédio ou pelo excesso de impressões sensoriais. Basta comparar como nos sentimos depois de um dia de caminhada por campos e florestas ou um dia passado num parque de diversões ou shopping center.
Devemos ter em mente também que qualquer aprendizado depende de dor e cansaço, é um processo demorado, exaustivo, que requer esforço, repetição, e por isso também é doloroso. Em nossa vida cotidiana todavia, procuramos receber tudo o mais pronto possível, evitamos qualquer forma de esforço, buscamos a comodidade para nós, e também para as coitadinhas das crianças. Elas não deveriam sofrer, trabalhar, esforçar-se... Outra forma de dor é a dor da espera; queremos receber tudo imediatamente, não temos paciência, exigimos respostas imediatas e queremos ter logo todas as vontades satisfeitas. O mesmo aplica-se às crianças por nossa culpa. Elas precisam aprender a esperar; alguém ainda se lembra da expectativa, da espera ansiosa pelo aniversário, ou por aquela festa, ou a ânsia para que se possa finalmente realizar a viagem planejada há tanto tempo? Uma educação sem dor é semelhante à analgesia ou até mesmo à anestesia. Quem aprende a experimentar a dor “normal”, cotidiana, está preparado para suportar a dor do destino. Quem não teve a oportunidade de fortalecer-se com as dorzinhas “normais”, vai refugiar-se nas mais diversas “analgesias”: drogas, álcool, outros vícios, sexo, “fugas” do mundo, quando tiver que enfrentar as inevitáveis dores do destino. Por outro lado, onde não há vivência da dor, não pode surgir a compaixão. Jamais poderemos ajudar alguém que esteja sofrendo se não tivermos tido vivências dolorosas.”
Porque poupamos nossos filhos desses tipos de vivências: esforço físico, cansaço, frustrações, espera?
O que nós adultos, pais, vemos de tão negativo  nesses sentimentos que nos levam a essa atitude em relação aos filhos?
Como podemos ensinar nossos filhos a tolerar as pequenas frustrações do dia a dia?
Como podemos auxiliá-los a enfrentar as situações de adversidades da vida?
A superproteção enfraquece e impede o desenvolvimento da autoproteção e de recursos próprios de resistência , o que chamo de uma criança sem pele. O confronto com as adversidades da vida fortalecem a vontade. A dor, frustração, espera, são necessárias e salutares para o processo de aprendizado e amadurecimento infantil.  Através delas a criança tem a chance de desenvolver forças de resistências própria.

No longa- metragem documentário de 2002 "Ser e Ter",  o cinesta francês Nicholas Philibert apresenta uma escola comunitária localizada na zona rural da França onde vemos uma única sala com apenas um professor trabalhando com uma turma de crianças entre 3 e 11 anos. O documentário é bem interessante e há uma cena em que o professor sai com seus alunos para uma caminhada, um passeio ao ar livre. Pelos prados podemos ver as crianças super agasalhadas num dia muito frio. Uma cena bem bucólica!  

Uma amiga que foi viver por uns tempos em uma cidade pequena na Inglaterra, relatou  assim que chegou que, na escola a professora de sua filha caçula saia todas as manhãs com as crianças para uma caminhada, independente da temperatura externa.

Lembro-me quando minha filha ainda estava no Jardim, que sua professora intentou uma atividade assim com as crianças, porém o medo que assola constantemente quem vive nas grandes metrópoles, impediu que tal intenção se concretiza-se. Romper os muros da escola não é tarefa fácil, mas devemos tentar.


abraço fraterno
Ana Lúcia Machado

terça-feira, 10 de maio de 2011

CLAREAR na Livraria Cultura

O livro Clarear - a pedagogia Waldorf em debate está à venda na Livraria Cultura pelo site, e em todas as suas lojas do Brasil. Com certeza trata-se de uma importante conquista.

http://www.livrariacultura.com.br/


Abraço
Ana Lúcia Machado

segunda-feira, 9 de maio de 2011

ESCOLA DE PAIS: Pais materiais ou Pais morais?

"Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos e esquece-se da URGÊNCIA de deixarmos filhos melhores educados,honestos, dignos, éticos, responsáveis para o nosso planeta através dos nossos exemplos."

Educar os filhos nos dias de hoje não tem sido tarefa fácil e estamos pagando um preço muito alto por nossa insegurança enquanto pais, e por uma educação permissiva. Dias atrás a escola de meus filhos reuniu os pais para a palestra “Limites, a difícil arte de saber frustrar” com a profª Dra. Joana D’Arc Sakai, psicóloga clínica e escolar, com especialização em Psicanálise de crianças e adolescentes pela USP. Fomos convidados a refletir sobre algumas perguntas:

- Quais as consequências de uma educação tolerante na formação do adulto?

-Amor demais ajuda a crescer? Fortalece o “eu” ou sufoca?

Revendo algumas anotações que fiz naquela noite, dou destaque as seguintes:

-Sem limites não há possibilidade de satisfação, pois nada falta.
-A falta é fundamental para que o ser humano busque, crie, aprenda.
-Limites, frustrações, são gestos de amor.
-Os NÃOS dos pais ajudam a suportar os NÃOS da vida.

Como formadores de uma nova geração devemos nos conscientizar de que somos o exemplo para nossos filhos, eles imitam nossa maneira de viver. Por meio dos nossos exemplos eles introjetam valores.Como ponto de referência material e financeiro para nossos filhos, temos nos empenhado com louvor, muito preocupados em prover coisas materiais - as novidades tecnológicas, roupas de grife, viagens ao exterior - deixamos em segundo plano a função de pais morais.

No ano passado li um artigo da juíza de família do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro , Andréa Pacha, no jornal O Estado de S. Paulo e dada a importância desse artigo, quero compartilhá-lo aqui:

“Um fenômeno recente tem se repetido com frequência cada vez maior nas Varas de Família, em todo o País: a busca da Justiça pelos pais, como uma forma de suprir a sua incapacidade de estabelecer limites e fazer os seus filhos cumprirem regras e aceitarem restrições. Espera-se que um magistrado decida em que escola a criança deve estudar, que ambientes deve frequentar, que tipo de música pode ouvir, a que horas deve voltar para casa e até mesmo que roupas pode vestir.

Não têm sido raras as audiências em que alguns pais, inseguros do seu papel, comparecem na companhia dos filhos e delegam ao julgador escolhas cotidianas, numa declarada manifestação de limitação do exercício de sua autoridade. Trata-se de um verdadeiro paradoxo, pois a mesma sociedade que brada por menos Estado espera que o Estado interfira justamente naquelas relações que deveriam ser exclusivamente privadas.(...)

O processo de educação, no entanto, encontra-se numa encruzilhada: como educar os filhos, com os limites e as restrições próprios do processo civilizatório, sem o devido exercício da autoridade? Como representar o papel de pai ou mãe sem o ônus de se responsabilizar pelas contrariedades naturais do amadurecimento? Como esclarecer para os adolescentes que a vida não é justa e que, infelizmente nem tudo acontece como se espera e se programa? Como ser firme sem se revelar um déspota e sem perder a ternura?

Não existe, até onde se sabe, geração espontânea de adolescentes bem educados. Exceto que alguém ensine desde infância, que os valores éticos, morais e comportamentais não são inatos nem assimiláveis com o simples e natural passar do tempo. Demonstrar que não se vive em grupo sem aprender a ceder, que a busca desenfreada pelo consumo e pelos prazeres individuais é incompatível com a vida em sociedade, que tristezas e as contradições são estados permanentes da condição humana, que a vida é precária e tudo é provisório, essa é a tarefa primordial dos pais. Assim como é tarefa ensinar os filhos a transitarem neste mundo em permanente mudança, observando os valores de humanidade, que devem nortear qualquer relação. A dor e o limite fazem parte desse processo de aprendizado.

A tentativa de transferência dessa tarefa, primeiro para a escola, depois para os terapeutas e agora para os juízes não parece o melhor caminho para enfrentar o problema. Essa nova geração, seguramente mais informada, mais tolerante e menos preconceituosa, merece ser cultivada por valores melhores e mais consistentes. O exercício da autoridade não deve ser visto como ameaça aos avanços até aqui alcançados no terreno das liberdades e na horizontalidade nas relações.(...)

Para ser eficiente, também a comunicação entre pais e filhos tem de ser clara e não se resume a uma mera troca de palavras. Mais do que ensinados e verbalizados, os valores éticos devem ser transmitidos pelo exemplo. E o fato é que uma parte significativa da elite da sociedade tem vivido, historicamente, sem se submeter a restrições ou se subordinar a limites para viver em grupo. O reflexo de atos cotidianos dessa elite - nos quais prevalecem a certeza da impunidade, o jeitinho, o paga quem pode, o “sabe com quem está falando?” – acaba sendo assimilado pelos jovens como princípios a serem seguidos.(...)”

Necessitamos urgentemente tomar a educação de nossos filhos em nossas próprias mãos, e resgatar a autoridade que nos compete, readquirir a confiança e firmeza que a tarefa da educação exige. O maior patrimônio que podemos deixar para os filhos é a educação, esse deve ser nosso investimento. Investir no SER. Essa base sólida os capacitará para conquistas na vida, ao seu tempo, por eles mesmos, o que permitirá à eles o sabor da vitória.

Com o objetivo de dar suporte aos pais e auxiliá-los na tarefa da educação dos filhos, encontramos atualmente cursos, palestras, que buscam fortalecer e apoiar mães e pais, oferecendo à eles recursos que facilitam a construção de relações familiares saudáveis. Dentre eles aponto o Curso Vivencial "Construindo e Renovando Laços em Família" com a psicóloga e terapeuta Ana Cristina Corvelo e outras profissionais, e a palestra "A difícil arte de educar em tempos de estresse e violência", ministrada por Lindaura Ambrósio,formada em Ciências Sociais, coordenadora e terapeuta do Clube da Vida http://www.clubedavida.org.br/.

Abraços
Ana Lúcia Machado

segunda-feira, 2 de maio de 2011

EDUCAR - Rubem Alves



Eis alguns fragmentos deste extraordinário educador, Rubem Alves:

"Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado."

Cabe aqui a observação e depoimento da cineasta e roteirista Laís Bodanzky, diretora do filme brasileiro de 2010 "As melhores coisas do mundo". A cineasta rodou escolas particulares paulistanas como pesquisa para o filme e declarou as seguintes impressões:

"Notei como os jovens ficam a maior parte do tempo dentro da escola, ficam mais em contato com colegas e professores, do que com seus familiares. A escola é a família deles. Os pais vão trabalhar tranquilos porque sabem que seus filhos estão trancados em uma instituição que os protege. Por coincidência, a rotina da escola e sua arquitetura se assemelham à de um cárcere. Muros altos, vigias no portão, câmeras pelos quatro cantos, toque de recolher, momento de sol no pátio, corredores enormes, multidão indo para suas "celas" de aula. É dessa forma que eles são protegidos do mundo cruel e violento da cidade. Isolar para educar. Isolar para educar?"

Laís Bodanzki alerta para a necessidade de se educar os pais em primeiro lugar:
"Os pais acham que pagar caro já é o suficiente para a escola não encher o saco deles, que trabalham tanto, coitados. Os filhos são reflexo direto de seus pais, não fiz faculdade de psicologia para dizer isso, mas notei na minha pesquisa o quanto é explícito. Logo, para uma escola educar um aluno ela tem também que educar os pais do aluno, mas a escola tem medo de encarar os pais e educá-los. A escola deve preparar o aluno para se tornar um cidadão. Como explicar o que é cidadania se a escola esconde a cidade do aluno?

Ficam aí algumas boas perguntas para refletirmos.

Abraços
Ana Lúcia Machado

terça-feira, 12 de abril de 2011

Realengo: o que esta tragédia nos diz?

Que leitura pode ser feita sobre a tragédia em Realengo? Não sei. Tenho muitas perguntas e talvez nenhuma resposta. Mas atrevo-me a dizer que Wellington, filho de nossa sociedade, foi vítima também, assim como as 12 crianças que tiveram suas vidas ceifadas por ele na mais brutal das chacinas ocorridas em uma escola no Brasil.

Ele foi vítima da crise que estamos vivendo na família, vítima da atual crise na Educação, crise das instituições que se denominam religiosas, enfim, vítima de todas as instituições que deveriam apoiar e sustentar de forma saudável a nossa sociedade; sociedade que se encontra, assim como Wellington estava, gravemente doente, na UTI.

É o momento de perguntarmos e identificarmos onde estamos falhando com nossas crianças e nossos jovens. Como educadores, pais, sacerdotes, médicos e terapeutas, devemos perguntar qual a nossa parcela de responsabilidade na tragédia que nos assolou? Que modelo de ser humano estamos espelhando para as futuras gerações?

Nelson Rodrigues tem uma frase famosa que diz: “O caos não se improvisa, ele é obra de séculos”. O quadro atual caótico que temos diante de nós não surgiu de repente, não se fez ontem; já vem sendo tecido dia a dia nas tramas de nosso silêncio, de nossa omissão e falta de indignação frente a eventos que muitas vezes julgamos pequenos e que aos poucos revelam proporções que passam a escapar ao nosso controle.

Um exemplo disso são os casos de bullying. Tema que abordarei aqui mais detalhadamente em outra ocasião. Essa prática abominável vem crescendo a cada dia em nossa sociedade, nas escolas, entre nossas crianças, nossos filhos, e deveria ser tratada com mais atenção pelas escolas e famílias. O bullying é uma incubadora do caos social.

Essa tragédia hedionda de Realengo é conseqüência do descuido humano e desamor que se generalizou. Assistimos a mais sangrenta guerra travada nas trincheiras de nossa própria estagnação. Há quem afirme que o ser humano é um projeto que não deu certo, será isso mesmo? Quando despertaremos deste sono de morbidez e nos atentaremos para a realidade da dependência que temos um do outro, para a necessidade de cuidarmos uns dos outros? Leonardo Boff em sua obra “Saber cuidar”, analisa a fábula-mito do Cuidado, que coloca o cuidado na essência do humano, como um fenômeno que é a base possibilitadora da existência humana enquanto humana. Se negligenciarmos essa base, caminharemos para nossa própria extinção. Precisamos resgatar essa essência. Boff atribui a falta de cuidado à desconexão com o TODO,ao desconhecimento de que todas as coisas estão ligadas umas às outras.

O caminho que temos a nossa frente deverá ser percorrido na comunhão, com a consciência que estamos no mesmo barco. Ou salvamos todos, ou nos perderemos como humanidade. Nossa salvação e libertação se encontra na FRATERNIDADE

Abraços
Ana Lúcia Machado