terça-feira, 5 de julho de 2011

Consumo e escola por Luciane Lucas dos Santos

Esse texto é da Professora universitária e pesquisadora Luciane Lucas dos Santos que convida a escola a assumir seu verdadeiro papel na sociedade - o de formação de indivíduos capazes de atuar socialmente. Luciane propõe uma reflexão sobre o consumo do ponto de vista pedagógico e aponta alternativas viáveis de atuação da escola nessa direção. É um texto profundo e instigante:


Serve o consumo para pensar?!: Consumo e escola:

A reflexão sobre o consumo no espaço da escola: 

representações e outros assuntos na sala de aula



Há algumas semanas aconteceu o primeiro chat de consumo do Instituto Alana. Não pude participar, mas fiquei pensando sobre o assunto, principalmente porque um dos pontos abordados foi a relação entre consumo e escola. Postei várias coisas no twitter pós-chat, mas queria compartilhar aqui algumas idéias.

O consumo não é um ato solitário. Isto quer dizer que ele não é tão individual como muitos de nós acreditamos. O coletivo tem papel importante nas decisões de consumo dos indivíduos, já que os sentidos em circulação nos bens são sociais. O consumo individual, portanto, tem, por trás dele, um olho coletivo. Como intervir, então, nas representações sociais hegemônicas - nas idéias dominantes de beleza, verdade, justiça, elegância, diferença etc?

Se os pais têm papel, em primeiro plano, nos hábitos de consumo dos filhos, a escola não ocupa um lugar menos importante. Deve debater e refletir sobre o mundo vivido, os valores em curso na sociedade, o resultado da disseminação destes valores. Isto não significa que ela deva ser responsabilizada isoladamente pelas idéias com que as crianças chegam em casa. É preciso entender que a escola é um microcosmo da vida em sociedade; nela, manifestam-se os vários "pensares". E é bom que esta interação aconteça. Por outro lado, a escola não deve eximir-se de seu papel por conta das orientações que o aluno recebe em casa. De novo: a escola é um microcosmo do mundo vivido, reunindo inevitavelmente muitos olhares e perspectivas. É importante que a escola estimule não só uma ponderação mais crítica da realidade, como também prepare os muitos "pensares" para maior justiça cognitiva. De modo geral, família e escola devem compartilhar o trabalho de reflexão sobre as transformações (desejáveis ou não) nos sentidos de infância/adolescência, como serem, ambas, espaço de estímulo para outras experiências de troca e consumo cultural.

No caso específico da escola, a discussão sobre o consumo deve ser mais profunda e não resumir-se a trazer o consumismo como tema de debate em uma ou outra aula. As veias internas do consumo como fenômeno social precisam ser expostas para que sejam estimuladas novas práticas na vida da criança / adolescente. É preciso, por exemplo, não apenas ensinar ciência, biologia, química, mas expor o discurso científico em sua pseudo-neutralidade. O modelo de produção que hoje referendamos, as tecnologias que empregamos, os avanços da tecnociência que aplaudimos têm efeitos no mundo concreto. Ainda assim e na contramão destes efeitos, a ciência é ensinada nas escolas como neutra, como a forma mais nobre de saber. Sempre como se outras formas de pensar o mundo fossem rigorosamente anacrônicas e sem valor. Parecemos ignorar que, por trás do discurso científico, hoje, subjaz um modelo de performance, de corpo, de vida, de limite.

É preciso expor, em aulas diversas, o apartheid social que resulta da transformação do espaço em mercadoria (a cidade não é pra todos, haja vista a distribuição dos equipamentos urbanos). Do mesmo modo, é preciso debater algumas representações dominantes nos livros escolares. Dizem que a escola tem que ser neutra. Ok. Mas sua aparente neutralidade faz circular conceitos de crescimento e desenvolvimento que se tornam  palavras de ordem. Quem questiona o que o crescimento implica e a quem se destina? Porque desenvolvimento é uma palavra a priori boa nos livros escolares?

Exemplos não faltam para levantar maiores reflexões. Enquanto cartilhas e livros enaltecem o agronegócio com o seu "crescimento para o país", nem sempre trazemos à superfície alguns saberes usualmente silenciados em aulas de História e Geografia (camponeses que trocam sementes para manter a diversidade biológica, a não divisão cultura x natureza pelos indígenas, os direitos de terra para os povos quilombolas). É preciso criar o respeito por outras culturas e ensinar que a diferença não é má, desde que ela possa manter como igual a condição de conversa. Um camponês não é residual no seu conhecimento em relaçãoà tecnologia do agronegócio. Esta hierarquia construída por uma imaginário tecnológico naturalizou-se entre nós. É preciso que a escola estimule ouvidos e olhos para as mundivisões.

A diferença deixa de ser fator de enriquecimento sempre que vira distinção social - uma das molas mestres do consumo. Se o consumo gera pertencimento e é hj um dos principais marcadores identitários, é preciso que a escola fomente com criatividade outros modos de construção e fortalecimento da identidade, que estimule outros modos de integração e reconhecimento de grupo. Circuitos diretos de troca podem ser uma saída criativa para redimensionar politicamente o valor das trocas na constituição da identidade. Podem, também, desatrelar o consumo cultural do aspecto monetário que hoje o inunda. Não seria oportuno que os professores estimulassem clubinhos de gibis, de saberes e habilidades? As possibilidades de troca entre os alunos podem ser múltiplas, ajudando a desconstruir a idéia de que o dinheiro seja a única mediação possível nas trocas. Neste sentido, descortinar outros rituais não-ocidentais de troca em aulas de geografia, sociologia, etnomatemática, pode ser útil para desmistificar a idéia de que formas de troca que não envolvam dinheiro sejam qualitativamente inferiores.

Debater, na escola, o consumo é também debater a descartabilidade que caracteriza o contemporâneo. Antes de incensar a reciclagem, é preciso fazer as crianças refletirem sobre o caráter dúbio da velocidade, da inovação, da criação de objetos novos em folha. Contar a história de Leônia pode ser um bom começo e uma boa metáfora. Cidade invisível de Ítalo Calvino, Leônia mostra o modo automático como nos viciamos na novidade, não percebendo mais os custos sociais e ambientais deste mundo permanentemente fresco e renovado. Conforme denomina Beatriz Sarlo, trata-se, hoje, de "colecionar atos de consumo". Neste sentido, seria bom que a escola investisse em soluções pedagógicas capazes de fazer ver o dia seguinte do nosso "enaltecimento ao descarte e inovação tecnológicos". Muitas são as formas de suscitar esta curiosidade e esta percepção: fotografar o que está no lixo, buscar saber que fim as pessoas dão aos seus celulares, investigar em que países vão parar os computadores velhos de que se desfazem, por exemplo.

Em suma, a reflexão sobre o consumo, do ponto de vista pedagógico, precisa ser redimensionada. Os excessos de consumo sempre preocupam os pais, é verdade. Mas o nó górdio do consumo é anterior. Tem a ver menos com a quantidade e mais com a própria natureza do consumo que legitimamos. O consumo é um sistema de classificação social, já nos tinha advertido, de formas diversas, Simmel e Veblen (no século XIX) e Bourdieu, mais recentemente. Logo, o debate sobre o consumo é, antes, um debate sobre os valores que o mercado dissemina e a que o espaço da escola, como parte do mundo vivido, não está imune.  Uma escola realmente preocupada com este tema deve introduzir questionamentos sadios nos diversos programas de aula (incluindo química, física, biologia, além das matérias de natureza "social"), além de criar situações (visitas, aulas na rua, fotografias, gravação in loco, produção de infográficos em sala etc), em que a criança/adolescente tome contato com a realidade resultante de um mundo que escalona pessoas pelo que têm.

Nenhum comentário:

Postar um comentário