segunda-feira, 9 de maio de 2011

ESCOLA DE PAIS: Pais materiais ou Pais morais?

"Fala-se tanto da necessidade de deixar um planeta melhor para os nossos filhos e esquece-se da URGÊNCIA de deixarmos filhos melhores educados,honestos, dignos, éticos, responsáveis para o nosso planeta através dos nossos exemplos."

Educar os filhos nos dias de hoje não tem sido tarefa fácil e estamos pagando um preço muito alto por nossa insegurança enquanto pais, e por uma educação permissiva. Dias atrás a escola de meus filhos reuniu os pais para a palestra “Limites, a difícil arte de saber frustrar” com a profª Dra. Joana D’Arc Sakai, psicóloga clínica e escolar, com especialização em Psicanálise de crianças e adolescentes pela USP. Fomos convidados a refletir sobre algumas perguntas:

- Quais as consequências de uma educação tolerante na formação do adulto?

-Amor demais ajuda a crescer? Fortalece o “eu” ou sufoca?

Revendo algumas anotações que fiz naquela noite, dou destaque as seguintes:

-Sem limites não há possibilidade de satisfação, pois nada falta.
-A falta é fundamental para que o ser humano busque, crie, aprenda.
-Limites, frustrações, são gestos de amor.
-Os NÃOS dos pais ajudam a suportar os NÃOS da vida.

Como formadores de uma nova geração devemos nos conscientizar de que somos o exemplo para nossos filhos, eles imitam nossa maneira de viver. Por meio dos nossos exemplos eles introjetam valores.Como ponto de referência material e financeiro para nossos filhos, temos nos empenhado com louvor, muito preocupados em prover coisas materiais - as novidades tecnológicas, roupas de grife, viagens ao exterior - deixamos em segundo plano a função de pais morais.

No ano passado li um artigo da juíza de família do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro , Andréa Pacha, no jornal O Estado de S. Paulo e dada a importância desse artigo, quero compartilhá-lo aqui:

“Um fenômeno recente tem se repetido com frequência cada vez maior nas Varas de Família, em todo o País: a busca da Justiça pelos pais, como uma forma de suprir a sua incapacidade de estabelecer limites e fazer os seus filhos cumprirem regras e aceitarem restrições. Espera-se que um magistrado decida em que escola a criança deve estudar, que ambientes deve frequentar, que tipo de música pode ouvir, a que horas deve voltar para casa e até mesmo que roupas pode vestir.

Não têm sido raras as audiências em que alguns pais, inseguros do seu papel, comparecem na companhia dos filhos e delegam ao julgador escolhas cotidianas, numa declarada manifestação de limitação do exercício de sua autoridade. Trata-se de um verdadeiro paradoxo, pois a mesma sociedade que brada por menos Estado espera que o Estado interfira justamente naquelas relações que deveriam ser exclusivamente privadas.(...)

O processo de educação, no entanto, encontra-se numa encruzilhada: como educar os filhos, com os limites e as restrições próprios do processo civilizatório, sem o devido exercício da autoridade? Como representar o papel de pai ou mãe sem o ônus de se responsabilizar pelas contrariedades naturais do amadurecimento? Como esclarecer para os adolescentes que a vida não é justa e que, infelizmente nem tudo acontece como se espera e se programa? Como ser firme sem se revelar um déspota e sem perder a ternura?

Não existe, até onde se sabe, geração espontânea de adolescentes bem educados. Exceto que alguém ensine desde infância, que os valores éticos, morais e comportamentais não são inatos nem assimiláveis com o simples e natural passar do tempo. Demonstrar que não se vive em grupo sem aprender a ceder, que a busca desenfreada pelo consumo e pelos prazeres individuais é incompatível com a vida em sociedade, que tristezas e as contradições são estados permanentes da condição humana, que a vida é precária e tudo é provisório, essa é a tarefa primordial dos pais. Assim como é tarefa ensinar os filhos a transitarem neste mundo em permanente mudança, observando os valores de humanidade, que devem nortear qualquer relação. A dor e o limite fazem parte desse processo de aprendizado.

A tentativa de transferência dessa tarefa, primeiro para a escola, depois para os terapeutas e agora para os juízes não parece o melhor caminho para enfrentar o problema. Essa nova geração, seguramente mais informada, mais tolerante e menos preconceituosa, merece ser cultivada por valores melhores e mais consistentes. O exercício da autoridade não deve ser visto como ameaça aos avanços até aqui alcançados no terreno das liberdades e na horizontalidade nas relações.(...)

Para ser eficiente, também a comunicação entre pais e filhos tem de ser clara e não se resume a uma mera troca de palavras. Mais do que ensinados e verbalizados, os valores éticos devem ser transmitidos pelo exemplo. E o fato é que uma parte significativa da elite da sociedade tem vivido, historicamente, sem se submeter a restrições ou se subordinar a limites para viver em grupo. O reflexo de atos cotidianos dessa elite - nos quais prevalecem a certeza da impunidade, o jeitinho, o paga quem pode, o “sabe com quem está falando?” – acaba sendo assimilado pelos jovens como princípios a serem seguidos.(...)”

Necessitamos urgentemente tomar a educação de nossos filhos em nossas próprias mãos, e resgatar a autoridade que nos compete, readquirir a confiança e firmeza que a tarefa da educação exige. O maior patrimônio que podemos deixar para os filhos é a educação, esse deve ser nosso investimento. Investir no SER. Essa base sólida os capacitará para conquistas na vida, ao seu tempo, por eles mesmos, o que permitirá à eles o sabor da vitória.

Com o objetivo de dar suporte aos pais e auxiliá-los na tarefa da educação dos filhos, encontramos atualmente cursos, palestras, que buscam fortalecer e apoiar mães e pais, oferecendo à eles recursos que facilitam a construção de relações familiares saudáveis. Dentre eles aponto o Curso Vivencial "Construindo e Renovando Laços em Família" com a psicóloga e terapeuta Ana Cristina Corvelo e outras profissionais, e a palestra "A difícil arte de educar em tempos de estresse e violência", ministrada por Lindaura Ambrósio,formada em Ciências Sociais, coordenadora e terapeuta do Clube da Vida http://www.clubedavida.org.br/.

Abraços
Ana Lúcia Machado

6 comentários:

  1. Eu como educadora almejo que os pais se conscientizem de sua função, pois necessitamos com urgência de pais que realmente cumpram seu papel de educar.

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  2. Parabéns pelo texto Ana!
    Na realidade, acredito que a maior parte dos pais está tentando fazer seu melhor para acertar, mas ainda está buscando por caminhos que os façam sentir seguros. Divulgar esses caminhos e promover a reflexão podem contribuir para que nossos jovens recebam uma educação mais adequada para seu desenvolvimento em todos os aspectos. Como pai e professor de escola Waldorf, procuro aprender sempre para aprimorar-me como educador.
    Abraços,
    George

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  3. Com toda certeza estamos a caminho, em construção como seres humanos, na busca do aperfeiçoamento, da excelência e isso nos torna melhores a cada dia.

    abraço
    Ana Lúcia Machado

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  4. Parabéns pela coragem: conheço muito pouca gente que tem coragem de defender autoridade, porque sabe que isso é bem diferente de autoritarismo. Concordo com tudo que foi dito e fico grata pelo compartilhamento.
    Luciene Mendes

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  5. Lindaura Ambrosio10 de maio de 2011 18:14

    Parabéns pela iniciativa e pelo texto! - É confortante encontrar pessoas com esse nível de consciência.. O desequilibrio, a insatisfação e a violencia estão batendo à porta de familias bem estruturadas, com nível sócio-economico e com formação escolar. Não podemos mais culpar a miséria, a falencia de sentimentos nem a ausencia de suporte escolar.. é chegada a hora de deixarmos de ser simplesmente "animais racionais" (predadores pensantes) e ingressarmos na dimensão consciente do SER..
    "Pensar" sem consciência é como dirigir um carro sem habilitação.
    O primeiro passo é aprendermos a reconhecer e a desenvolver a nossa própria consciência pessoal.. A educação precisa aprender a ensinar isso.

    Lindaura Ambrosio

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  6. Gostei muito de ler o seu post. Andei refletindo bastante sobre esse assunto, inclusive escrevi parte da reflexão no meu blog também.
    Vejo a idéia do attachment parenting se difundindo muito, e as mães de bebês sendo persuadidas a evitarem o 'não' ao máximo. É muito importante que ainda hajam vozes que coloquem o contrapeso.

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