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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Resenha de CLAREAR por Valdemar Setzer

Em meados de agosto fui procurada pelo Profº Valdemar Setzer que me perguntou se alguém havia feito uma resenha de Clarear. Respondi à ele que não. Então me informou que estava elaborando uma resenha e comentou: “O fato de nenhum professor Waldorf ter feito essa resenha até agora já mostra um problema na aplicação da pedagogia Waldorf no Brasil”.
É com imensa satisfação que compartilho nesse espaço a resenha feita por tão ilustre pessoa, conhecedora profunda e praticante da Antroposofia. Desde a concepção de  Clarear, sempre foi meu anseio que as histórias colocadas à público fossem iluminadas pela totalidade de doze prismas diferentes, como recomenda Rudolf Steiner. Sou grata ao Profº Setzer por seu ponto de vista. Que venham outros para enriquecer esta proposta de reflexão, pois como diz Paulo Freire “A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação TEORIA/PRÁTICA sem a qual a TEORIA pode virar um blábláblá, e a PRÁTICA ativismo.” (Pedagogia da Autonomia pg 24)
Para introduzir a resenha de Valdemar Setzer, convidei a jornalista Sandra Seabra Moreira, que diz:
"Quem acompanha a movimentação das comunidades antroposóficas sabe o tamanho das responsabilidades que as pessoas assumem e o tanto que, muitas vezes, sacrificam suas vidas pessoais pelo ideal que abraçam.
Também nós que participamos da elaboração de Clarear, desde que nos propusemos a expor nossas vidas e nossas crianças, também nos mantivemos extremamente ocupados – para além das nossas tarefas diárias – com as reflexões acerca dos rumos que tomariam uma publicação tão incomum no contexto da Pedagogia Waldorf no Brasil. Mais do que isso, como nos situaríamos no próprio movimento antroposófico, uma vez que nos colocamos de forma crítica e teimamos em não abandonar o barco. 
De um lado, Clarear ajudou a elaborar as frustrações; de outro, nos colocou em uma condição de vulnerabilidade. De um lado, torcíamos para que todos esquecessem os episódios relatados – são lembranças desagradáveis, tristes e penosas; por outro lado, nós sabemos, a indiferença que gera o esquecimento é a mesma que pode gerar mais ressentimentos. 
Por isso, o trabalho cuidadoso, preciso e isento do professor Waldemar Setzer nos surpreendeu de forma extremamente positiva. São 36 páginas, disponíveis no blog do autor http://www.ime.usp.br/~vwsetzer/ , e no site da Sociedade Antroposófica do Brasil http://www.sab.org.br/pedag-wal/artigos/resenha-clarear.htm, em que Setzer esmiúça cada relato, realizando a difícil tarefa de separar o joio do trigo. É impressionante notar a dedicação e o empenho do professor, cuja extensa e profícua trajetória profissional, como intelectual e antropósofo, pode ser conferida na sua página na Internet. 
É como se uma grande lufada de vento trouxesse de volta aqueles dias tristes, quando tivemos de abrir mão da Pedagogia Waldorf, em nome da proteção e sobrevivência anímica de nossos filhos. Porém, logo percebemos que estávamos a receber o frescor necessário, a grande oportunidade de reavivar as questões de Clarear, no sentido de buscar o maior número possível de olhares, até, quem sabe, chegarmos ao 12º ponto de vista e atingir a inteireza da compreensão, como nos ensina Rudolf Steiner.  
Cada um analisa os fatos a partir de suas próprias vivências. Entretanto, de nada vale partirmos para o mundo com nossas vivências se não for para transformá-las. O professor Setzer se dispõe a manter contato com os leitores do blog e do livro e, assim, esperamos debater, em blocos, as apreciações do professor em relação a cada relato, seguindo a ordem em que foram publicados no livro. 
Para começar, trazemos a conclusão elaborada por Setzer e duas listas: a dos pontos positivos e a dos pontos negativos conferidos por ele à publicação.
Antes porém, gostaria de expressar minha opinião acerca de dois pontos específicos expressos na Conclusão.
O primeiro deles diz respeito a “forças adversas”, no seguinte trecho:
“Nesse livro fica patente uma realidade: nas iniciativas antroposóficas, não se pode permitir nada mal feito, pois as forças adversas imediatamente usam as falhas para atacar a Antroposofia e suas aplicações. As eW deveriam conscientizar-se disso e fazer esforços muito grandes para sanarem as suas falhas. Em particular, a situação nas eW parece ser deficiente em relação a atitudes frente a professores inadequados e à participação dos pais, que devem ser mais ouvidos e esclarecidos.”
Penso que as forças adversas estejam presentes em todos os lugares, no meio antroposófico ou não; e dentro e fora de nós. E acho que atuam cotidianamente; se assenhoram da faringe e da palavra falada, especialmente quando pais resolvem colocar suas indignações para fora, na frente dos portões das escolas. E quando, inadvertidamente, na sala dos professores, um educador se expressa de forma intolerante em relação a uma família, ou de forma crítica em relação a uma criança. Se há a percepção de que essas forças atuam mais fortemente no meio antroposófico, talvez seja porque há um farto e precioso conhecimento à disposição que é, infelizmente, ignorado na vida prática diária. Ou seja, acredito muito fortemente que somos perseguidos por nossas próprias forças adversas e é contra elas, em nós, que devemos atuar.
Forças adversas atuam também em ambientes onde impera o medo, onde tudo deve ser dito “à boca pequena”. Daí se dizer com frequência da necessidade de um espaço e tempo para que pais e professores sejam acolhidos em suas queixas e inseguranças.
Nesse sentido, acredito que manter, sustentar e expandir o humilde espaço deste blog seja de imensa utilidade. Embora a palavra escrita seja um registro extremamente forte e definitivo, exige reflexão e se opõe à impulsividade, ao extravasamento sem frutos.
O outro ponto que gostaria de comentar é a respeito do “ponto de vista exterior”, e o possível desserviço prestado por Clarear nesse aspecto. É interessante notar como a expressão “alguém de fora”  é incrivelmente utilizada no meio antroposófico. Na escola que frequentei como mãe, havia relutância em que “alguém de fora” fosse chamado para resolver um problema; um consultor, por exemplo. Sendo que esse alguém era um professor mais experiente de outra escola Waldorf. Fiz um estágio prolongado em uma escola e essa condição profissional me deixava na lista dos “de fora” entre os professores, e meio que na lista dos “de  dentro” entre os pais.  É surreal.
Embora a antipatia seja tão necessária para a tomada de consciência, é tão necessária assim a diferenciação? Quem é de fora? Quem é de dentro? A que mundo nos referimos quando dizemos “de fora”, “externo”?  Sim, o conhecimento legado por Rudolf Steiner é precioso, mas é para protegê-lo que inventamos muros? Será que realmente são necessários?
Aliás, não tenho notícias de publicações nesses moldes referentes a outras pedagogias. Será, então, que Clarear não é justamente uma demonstração de um diferencial? Se a Trimembração não é uma realidade tão palpável nas escolas Waldorf, parece que, pelo menos, os pais alcançam uma força além de seus limites para permanecerem firmes a um ideal, ainda que seus filhos tenham sido colocados à margem da proposta. Por essa via, podemos ser chamados pelos “de fora” de fanáticos. Quando simplesmente acreditamos na Pedagogia e no seu potencial, apesar dos resultados nefastos em nossas famílias.
Ao admitir a possibilidade de haver os de dentro e os de fora, eu me pergunto:  “A quem devo minha cumplicidade: ao movimento antroposófico, ao movimento  Waldorf ou às pessoas, às crianças, ao processo de aprimoramento da prática pedagógica?”
Exatamente dentro do movimento antroposófico, devo minha cumplicidade a algumas pessoas. Justamente àquelas que me ensinam com palavras, gestos e ações que a Pedagogia Waldorf deve ir para o mundo, e imagino que ela deva ir do jeito que é: com preciosidades e defeitos.
Enfim, não consigo enxergar esse castelo onde vive a Antroposofia, tampouco a necessidade de reforçar a defesa construindo fossos. Talvez por isso não consiga discernir quem são os de fora e quem são os de dentro. Uma iniciante, talvez? Mais um motivo para comemorar a chegada de mestres como o professor Setzer para que ele possa , com suas argumentações,  elevar cada vez mais o nível de nossos debates. Desde já, seja bem-vindo!"
Sandra Seabra Moreira

Resenha de Clarear por Valdemar Setzer:
 Pontos positivos
  1. "Os critérios de seleção das histórias (V. item 4 acima) parecem muito bons.
  2. "A afirmação da tendência de fechamento das eW em relação ao mundo, citada no item 4 acima é um fato.
  3. "O livro chama indiretamente a atenção das eW para a necessidade de implantarem procedimentos claros para que os pais possam expressar suas preocupações em relação aos professores, eventualmente sem ter sua identidade revelada.
  4. "A ideia de introduzir relatos dos pais foi muito boa, pois dá vida a assuntos em geral tratados abstratamente. Os relatos podem servir para dar uma idéia de vários problemas que podem ocorrer em eW.
  5. "A autora aborda situações e levanta questões que deveriam ser discutidas por pais e professores.
  6. "Essas questões deveriam ser examinadas pessoalmente por todos os professores e pais, tentando verificar se elas não se aplicam a si próprios.
  7. "As perguntas formuladas em todo o livro, que se aplicam às escolas como um todo, poderiam ser compiladas, ordenadas e discutidas em reuniões de professores, de pais e em conjunto com os dois grupos, para se diagnosticar possíveis problemas e verificar se cabe um esforço no sentido de melhorar a escola.
  8. "Em particular, o livro mostra que é essencial que as eW e os pais controlem se os professores estão cumprindo ou não o currículo estabelecido, e que lacunas sejam prontamente sanadas.
  9. "A autora tentou não identificar as eW tratadas no livro, e nem professores e pais cujos casos foram citados. Com isso, evitou conflitos pessoais resultantes do livro. No entanto, veremos no próximo item que esse ponto positivo tem suas falhas.
  10. "É digno de nota muito especial o fato de que, em absolutamente todos os relatos, as crianças que saíram de eW e foram para escolas tradicionais não tiveram dificuldades para se adaptar, o que é um ponto altamente positivo em relação às primeiras. Com isso, a autora contribuiu para desfazer o mito de que, sendo o currículo W tão diferente, as crianças talvez tenham dificuldades de adaptação quando interrompem os estudos em uma eW.
  11. "O livro mostra muito bem que as eW não são perfeitas, aliás, como seria de esperar. Quem sabe ele motive um impulso de essas escolas buscarem uma melhoria, a fim de evitar os males relatados nas "histórias" como, aliás, era o desejo da autora.
  12. "Pelos relatos, pode-se inferir que alguns professores de classe têm problemas; as escolas deveriam cuidar o desempenho desses professores mais de perto, como recomenda a autora. É preciso também avaliar cuidadosamente se o tutor pedagógico (sobre essa função, ver a resposta à pergunta 2 do item 5.7) está tendo o rendimento esperado; por alguns relatos, pode ocorrer o contrário.

 Pontos negativos
  1. "Falta algo fundamental no livro: uma introdução à pW para o público fora do âmbito das eW. Penso que uma pessoa que não conhece a pW adquirirá do livro uma ideia muito parcial dela, e provavelmente errada quanto aos aspectos negativos.
  2. "Uma falha grave é a autora não ter citado o livro de Rudolf Lanz, Pedagogia Waldorf – caminho para um ensino mais humano, 6ª ed., S.Paulo: Ed. Antroposófica, 9ª ed. 2005, referência obrigatória para qualquer texto que trate de pW no Brasil. Várias citações não contêm a fonte, por exemplo a de Steiner na p. 29.
  3. "A autora usa termos sem os caracterizar suficientemente para leigos, como "professor de classe" e "tutor". No último caso, pode haver confusão entre o "tutor pedagógico", e o "tutor de classe".
  4. "Um defeito grave que permeia o livro é a generalização de problemas pontuais como se fossem problemas gerais das escolas envolvidas e, pior ainda, da pW, como o caso do trecho da p. 147 que comentei no item 6.
  5. "A autora não quis identificar os professores e as escolas, o que parece razoável, para não dar um tom pessoal. No entanto, como chamei a atenção em uma das histórias, a menção de uma certa mãe a "classes paralelas" permite identificar de que escola trata o seu caso. Mas ele não é o único. Como há poucas eW em São Paulo, a identificação de cada caso não seria muito difícil. Minha esposa logo reconheceu um deles. Em particular, certas características das escolas saltam à vista.
  6. "Ela parece não saber que a figura do professor de classe tem sofrido adaptações, tanto no Brasil com em outros países, como já citei no item 3 acima, pois não cita esses exemplos.
  7. "Os relatos de evasão são todos do ensino fundamental, a menos da 10ª história onde, aliás, a mãe concorda com a razões para a saída da filha. Com isso, falta no livro uma descrição de problemas do ensino médio das eW.
  8. "Um aspecto que me pareceu grave foi a apresentação apenas da visão dos pais entrevistados, quando a autora deveria, a bem da objetividade, ter também entrevistado os respectivos professores e exposto também o ponto de vista deles. Evidentemente, a falta de objetividade também pode ocorrer com pais, de modo que é necessário muito mais do que uma entrevista com eles para se chegar a uma visão objetiva da realidade. Minha esposa conheceu casos em que os pais alegavam algo sobre seus filhos e ela própria pôde constatar que representavam uma visão distorcida da realidade. Devido a esses fatores, resolvi solicitar à professora de classe do filho da autora do livro que me enviasse o depoimento que consta no apêndice. Deixo ao leitor a tarefa de comparar o relato de Ana Lúcia (item 5.1) com o depoimento da professora.
  9. "O livro deveria abordar também casos em que houve problemas com professores e que eles foram sanados, seja em curto prazo por ações retificadoras, ou com o passar do tempo, com o amadurecimento deles, dos alunos ou dos pais. Esses casos poderiam servir de exemplo para os que não são resolvidos.
  10. "Teria sido relativamente fácil fazer um levantamento de quantos pais estão, por exemplo, muito satisfeitos, regularmente satisfeitos ou insatisfeitos, com várias classes de várias escolas, para mostrar se a insatisfação é generalizada ou não.
  11. "No sentido do item anterior, o livro aborda relatos de casos apenas negativos; talvez devesse ser complementado abordando também casos positivos, para não dar a impressão de que os negativos são preponderantes.
  12. "Todas as perguntas colocadas no fim dos relatos poderiam ter sido respondidas em termos da pW e da realidade das eW, como foi feito neste texto.
  13. "O prefácio de Ruy Cézar não coloca seus pontos principais, amor e autoconsciência, em relação à pW e à Antroposofia, que abordam esses temas em profundidade.

Conclusões
Esta resenha partiu do princípio que os relatos são objetivos e fiéis à realidade, e não interpretações pessoais; quando cabia, foram colocadas dúvidas a esse respeito. Partiu também do princípio que a autora teve contato estreito com várias eW, e que os relatos são de pais também de várias escolas. Baseado nessas premissas e no conteúdo do livro, cheguei às seguintes conclusões:
  1. "O livro trata, claramente, de problemas entre professores e alunos, e professores e pais, para citar a expressão de Ruy Cézar mencionada no item 3 acima. O texto não trata de problemas gerais da pW e sim de algumas escolas, como a relativa falta de controle sobre a atuação dos professores, especialmente os de classe. Minha maior objeção é o livro dar uma impressão de ser uma crítica à pW, quando em realidade ele contém uma constatação de fatos e consequente crítica a certos professores e certas eW. Uma generalização indevida permeia o livro.
  2. "Minha segunda objeção ao livro é o fato de os relatos do item 5 trazerem exclusivamente a opinião dos pais, sem ter apresentado a visão dos professores correspondentes. Os leitores podem avaliar a importância disso comparando o relato do item 5.1, feito pela autora do livro, com o depoimento da professora de seu filho, no apêndice do próximo item desta resenha.
  3. "O nome do livro está errado. Ele não coloca a pW em debate, coloca algumas eW e alguns professores W em debate.
  4. "Nota-se uma certa incoerência entre a admiração que a autora diz professar por essa pedagogia e suas atitudes de parar de frequentar o seminário pedagógico e tirar sua filha da escola no fim do jardim da infância. Afinal, o problema por ela relatado passou-se, segundo ela, somente entre seu filho e sua professora. Isso faz conjeturar que há algo mais profundo, negativo, na relação dela para com a pW e talvez para com a Antroposofia, o que, por exemplo, é confirmado pela menção do livro de Colin Wilson, conforme comentado no item 6 acima.
  5. "O fato de seres humanos, os professores e os pais, serem falhos, não diminui a importância e os bons resultados da pW. Pelo contrário, mostra uma de suas facetas mais importantes: a liberdade que ela dá aos professores. Liberdade pode ser mal ou bem usada, mas é essencial que os professores a tenham, como expus no ítem 6.
  6. "Nenhuma eW é perfeita, pois depende de seres humanos. A autora apontou algumas possíveis falhas. Há várias outras. A mais gritante em minha opinião é a falta de identificação de vários professores com a Antroposofia, quando não são frontalmente contra ela; conheço alguns desses últimos casos. Sem essa identificação, a pW torna-se mera técnica de ensino, como exposto no item 4. É muito possível que essa situação se aplique a vários dos professores mencionados nas "histórias" relatadas pela autora. Se for esse o caso, novamente a culpa não é da pW, é dos professores e das escolas, que não exigem aquela identificação e o estudo constante da base conceitual da pW, como aliás foi recomendado em um dos relatos (V. 5.9).
  7. "A escolha de Ruy César para prefaciar o livro teve o mérito de envolver alguém estranho à pW; no entanto, nota-se a dificuldade de uma pessoa nessas condições, sem grandes conhecimentos dela e de Antroposofia, comentar algo referente à pedagogia e a Steiner. Talvez tivesse sido melhor alguém profundamente envolvido com a pW e a Antroposofia fazer o prefácio – se é que alguém com essas características iria concordar em assumir essa tarefa, face ao conteúdo do livro.
  8. "Apesar dos pesares, os problemas relatados são relevantes. Nesse sentido, recomendo que todos os professores e todos os pais de eW leiam esse livro, refletindo se o que ele relata identifica-se de algum modo com suas próprias pessoas – o que lhes deveria levar a tentar mudarem-se a si próprios e suas atitudes –, bem como as suas escolas. Os casos relatados deveriam ser tema de debates nas eW pelo corpo de professores, suscitando a pergunta: há algo de semelhante ocorrendo entre nós neste momento?
  9. "Em termos de perigo para a pW, a autora não aborda certas questões fundamentais, como a possibilidade de descaracterização geral de algumas eW em relação àquela pedagogia. É interessante notar que todos os casos que ela relata como negativos são desvios em relação ao ideal da pW. Mas são casos pessoais, pontuais; ainda não representam um desvio generalizado de uma escola em relação aos princípios da pW.
  10. "Com o que não posso de modo algum concordar é que o livro seja público, como citado pela autora na p. 29. Ele deveria ter sido editado como material de estudo, vendido exclusivamente em eW e nos seminários de formação, e não como livro vendido em livrarias. Qual é a reação de uma pessoa que não tem a mínima ideia do que vem a ser a pW ao lê-lo? Provavelmente adquirirá uma péssima impressão da pW, pois o seu cerne trata de problemas, e não de resultados positivos, como os que se pode ler no excelente trabalho de Wanda Ribeiro e Juan Pablo [19] entrevistando cerca de 100 ex-alunos formados na EWRS, citado na p. 37. No caso, os problemas não são da pW, como a autora devia ter mostrado caso a caso, e o que procurei fazer, mas problemas de seus professores e de pais; é possível que alguns dos últimos não souberam levar suas preocupações aos primeiros e às escolas. Não se deve também descartar que certas crianças realmente podem ser excessivamente problemáticas. Deve-se ainda considerar que há vários pais que fazem uma ideia errada de seus próprios filhos, ou idealizam-nos fora da realidade como já mencionei no ponto 6 deste item. Lembremos o que foi relatado no ponto 1 do item 8 acima: falta no livro, para o público em geral, uma introdução à pW e definição de termos do jargão W. Além disso, deveria haver uma avaliação da magnitude dos problemas, isto é, em média, quantos pais em cada classe sentem problemas como os relatados ou ainda outros. Sem isso, uma pessoa desavisada pode adquirir a falsa impressão de que esses problemas – relevantes – são generalizados, o que de maneira alguma é uma realidade. Qual é a reação de uma pessoa desavisada ao ler "Selecionei os relatos mais significativos dentre um universo surpreendentemente grande" (p. 32)? Pode ser que esse universo seja até ‘grande’ em números absolutos, mas o que importa no caso é o fator relativo: quanto casos negativos como os que ela relatou ocorrem nas eW em relação aos casos positivos, em que a criança vai até o fim do ensino fundamental e talvez do médio? Provavelmente muitos pais tiveram paciência com problemas como os relatados no livro, e depois ficaram felizes por seus filhos terem ido até o fim dentro de uma eW. É importante frisar que há vários pais, enganados pela pressão dos vestibulares, que tiram seus filhos no fim do ensino médio W para colocarem-nos em escolas que ostensivamente preparam para o vestibular; a esse respeito, veja-se meu artigo "Meu filho está terminando o ensino fundamental Waldorf, e agora?" [20].
  11. "Note-se que a má impressão que o livro pode causar no público em geral engloba o "meio antroposófico" como um todo, como já exposto no comentário sobre a sua expressão "possíveis retaliações pelo meio antroposófico" citada no item 4.
  12. "Faço aqui algumas recomendações para as eW, que podem ser tiradas do livro: 1. As escolas deveriam ter um esquema de chamar os pais periodicamente, pelo menos uma vez por ano, para perguntar, em caráter confidencial, se teriam algo a comentar em relação à escola e aos professores; confirmando-se algum problema, deve-se tomar providências rápidas e relatar aos pais o andamento para a solução do mesmo; 2. Deveria haver uma regra de que qualquer problema com uma criança deve ser comunicado imediatamente aos pais (cf. 5.8, p. 113). 3. Se há tutoria pedagógica de professores de classe, e assim mesmo ocorrem problemas sem que se tomem atitudes para saná-lo, o tutor deve ser mudado. 4. Havendo essa tutoria, deve-se orientar os pais do ensino fundamental a tratar sempre dos problemas de seus filhos primeiro com o professor de classe e, se o resultado não for satisfatório, com o tutor e, em última instância, com a comissão coordenadora do ensino fundamental (que deveria existir em cada eW); 5. Os professores e tutores (tanto os pedagógicos quanto os de classe) devem ser orientados a jamais recusar uma conversa com os pais, dentro de um tempo relativamente curto (cf. 5.8, p. 117).
Em resumo final, do ponto de vista interno à pW, o livro parece ser uma excelente contribuição para o aprimoramento das escolas, dos professores e dos pais, como é a intenção declarada pela autora na p. 38. Certamente há e sempre haverá muito a ser melhorado nas eW, bem como na adaptação da pW para a época atual e para cada ambiente onde cada escola está inserida.
Nesse livro fica patente uma realidade: nas iniciativas antroposóficas, não se pode permitir nada mal feito, pois as forças adversas imediatamente usam as falhas para atacar a Antroposofia e suas aplicações. As eW deveriam conscientizar-se disso e fazer esforços muito grandes para sanarem as suas falhas. Em particular, a situação nas eW parece ser deficiente em relação a atitudes frente a professores inadequados e à participação dos pais, que devem ser mais ouvidos e esclarecidos.
Finalmente, do ponto de vista externo parece-me que o livro é um grande desserviço à pW e à Antroposofia, por induzir impressões errôneas das mesmas. Para o público externo a elas, em minha opinião o livro não clareia, obscurece.
Abraço fraterno
Ana Lúcia Machado

sábado, 23 de abril de 2011

A regra de ouro como base das relações humanas

Uma nuvem de insegurança, medo, omissão e comodismo paira sobre o fenômeno do bullying nos dias de hoje. Esta questão deixou de ser apenas educacional e passou a ser uma questão de saúde pública também.

Tendo como base três fontes: a obra da Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva “Bullying – mentes perigosas nas escolas”, uma matéria da revista Isto É de 01/04/2011 e uma matéria da revista Veja de 20/04/2011, pretendo estimular a discussão desse tema para que as escolas e a sociedade em geral coloquem o bullying como pauta do dia para que a tragédia de Realengo não caia no esquecimento sem que medidas assertivas sejam tomadas visando o combate ao bullying e a redução desse comportamento abominável. Não pretendo trazer aqui nenhuma novidade sobre o tema, mesmo porque na maioria das vezes não carecemos de novidades, mas de informações básicas.

O bullying sempre existiu nas escolas. Esse termo vem da palavra inglesa bully que significa valentão e foi criado nos anos 70 pelo professor sueco Dan Olwes após associar as agressões sofridas pelos estudantes no ambiente escolar aos transtornos psicológicos sofridos pelos estudantes agredidos.

O que caracteriza o bullying? Segundo a Dra. Ana Beatriz em sua obra já citada, o bullying acontece quando apenas alguns se divertem à custa de outros que sofrem. Abrange todos os atos de violência (física ou não) que ocorrem de forma intencional e repetitiva, sem motivação específica ou justificável, contra um ou mais alunos, impossibilitados de fazer frente às agressões sofridas.

Normalmente as vítimas apresentam características que se desviam do padrão: são gordos ou magros demais, muito baixos ou altos, possuem alguma marca física como sardas, que os diferenciam dos demais, chegando até mesmo a uma deficiência física mais grave .

Comportamentos agressivos e transgressores infantojuvenil vem crescendo assustadoramente, e as escolas, autoridades públicas, pais, não conhecem o tema suficientemente bem a ponto de encará-lo de frente.

Dados apresentado pela revista Veja levantados em 2010 entre estudantes do ensino fundamental em escolas públicas e privadas, apontam que:

-10% foi alvo de bullying em 2010

-17% foram vítimas de cyberbullying (agressões pela internet)

-20% presenciaram atos de violência com freqüência

-28% dizem que sofrem maus tratos na escola

-58% das escolas não acionam os pais das vítimas nem dos agressores

-80% das escolas não punem os autores do bullying

Outro dado importante é que as Varas da Infância e da Adolescência têm recebido um número cada vez maior de denúncias sobre bullying, sendo que quase a totalidade das denúncias é relativa a ocorrências em escolas públicas, o que na opinião da Dra. Ana Beatriz significa que as escolas particulares estão fazendo “vistas grossas” em relação ao bullying ocorrido em suas dependências.

Uma abordagem interessante encontrada nesta obra é que o bullying é um fenômeno de mão dupla: ocorre de dentro para fora da escola e vice-versa. Muitas tragédias que acontecem nas imediações das escolas, em shoppings, festas, ruas foram motivadas e iniciadas dentro do ambiente escolar.

Alguns projetos que visam o combate ao bullying estão sendo implementados pelas escolas com base no desenvolvimento da capacidade de se colocar no lugar do outro e de reagir positivamente a situações adversas, no trabalho de despertar habilidades individuais de alunos menos sociáveis para melhora da autoestima dos mesmos, e o desenvolvimento da criatividade como forma de canalizar o impulso agressivo para algum talento.

No ano passado duas alunas do 2° ano do ensino médio da Escola Estadual Melvin Jones, em Caxias do Sul (RS), desenvolveram um programa anti-bullying para ser aplicado aos alunos do 5° ano do ensino fundamental, baseado em palestras e encontros entre pais e professores, resultando em diminuição dos casos de bullying.

Em São Paulo, no Colégio Magister os alunos do 7° ano participam de uma dinâmica de grupo cujo objetivo é fazê-los se colocar no lugar do aluno que sofre gozações, apelidos e agressões. Cada estudante recebe um adesivo com um apelido escrito, que é colocado às costas. Sem saber qual o rótulo, passa a ser tratado pelos amigos como tal. Após 15 minutos, todos são chamados a discutir o que vivenciaram. Assim passam a pensar um pouco mais antes de agredir algum colega.

O colégio paulistano Magno, adverte que hoje em dia tudo virou bullying e para distinguir o fenômeno de briguinhas corriqueiras entre colegas , promove encontros do corpo docente com psicólogos para que os episódios de bullying sejam identificados.

Na escola municipal carioca Fernando Tude de Souza, a coordenadora Tânia Maselli diz “Quebramos o silêncio ao trazer os pais à escola para falar sobre o assunto e reunir os agressores, as vítimas e os alunos que testemunharam a violência, para juntos produzir uma cartilha anti-bullying”. Ela elege a mudança de cultura como o primeiro passo e a punição aos agressores por parte da escola como segunda medida a ser tomada.

Segundo David Homblas, orientador educacional de Centro Educacional Pioneiro, a melhor alternativa é a prevenção: o primeiro passo é sensibilizar os alunos para a questão. Em 2010, crianças entre 6 e 13 anos assistiram a filmes, ouviram palestras e debateram o tema. Neste ano, na segunda fase do projeto, os alunos irão participar de concursos de redação e criação de cartazes sobre a violência nas escolas.Os melhores trabalhos serão espalhados ao redor da escola como forma de chamar a atenção para o problema.

O Instituto Glia lançou o Projeto Atenção Brasil – um retrato atual da criança e adolescente no Brasil. É uma cartilha sobre bullying , saúde mental, e a importância de se educar para a resiliência. Pode ser baixado gratuitamente pelo site (http: //aprendercrianca.com.br)

No 18° Congresso Internacional de Educação que acontecerá em São Paulo entre os dias 18 e 21 de maio, as pedagogas Aloma Felizardo e Elenice da Silva palestrarão sobre o tema “Bullying e Cyberbullying. O combate de todo o Brasileiro”. Com toda a certeza a responsabilidade sobre a condução desse tema aumentou muito depois da tragédia de Realengo e a expectativa sobre essa palestra também.

Outra questão que está em pauta é a criação de uma lei federal que castigue os autores do bullying. Segundo informações da revista Veja, quando esses casos chegam à Justiça, são enquadrados em infrações previstas no Código Penal, como injúria, difamação e lesão corporal.O Estatuto da Criança e do Adolescente pode ser acionado, mas na prática, é pouco eficaz. “Os juízes das Varas da Infância e Juventude muitas vezes não dão prioridade aos casos de bullying por julgá-los de menor gravidade”, diz o advogado e professor da Fundação Getúlio Vargas, Marcelo Leonardi.

Um projeto de Lei (n° 350, de 2007) do deputado estadual Paulo Alexandre Barbosa (PSDB-SP), aguarda para entrar em votação na Câmara Legislativa de São Paulo, e reza que o Poder Executivo fica autorizado a instituir o programa de Combate ao Bullying, de ação interdisciplinar e de participação comunitária nas escolas públicas e privadas do Estado de São Paulo.

As referências e valores que orientam nossos comportamentos na sociedade poderiam se resumir em uma única regra presente em diversas tradições religiosas e culturais:

Na tradição cristã: “E, como vós quereis que os homens vos façam, da mesma maneira lhes fazei vós também”. Evangelho de S.Lucas 6:31

Budismo: “Não prejudique os outros de maneiras que você mesmo julgaria prejudiciais”. Udanavarga

Judaísmo: “Aquilo que é odioso para você, não imponha aos outros”. Talmud, Shabbat 31ª

Hinduísmo: “Nenhum de vocês será fiel até que deseje para seu irmão aquilo que deseja para si mesmo”. Sunam

Confucionismo: “Não faça aos outros aquilo que não gostaria que lhe fizessem.” Analectos

Nessa única regra, está presente valores como respeito, compaixão, justiça, solidariedade, altruísmo, valores que devem ser cultivados no seio familiar e nas escolas desde os primeiros anos de vida.

Abraço fraterno
Ana Lúcia Machado

terça-feira, 5 de abril de 2011

Nas águas turbulentas da inquietação

Convicções e certezas muitas vezes conduzem a uma direção contrária ao que se almeja. Certezas são como portas fechadas, encerram qualquer expectativa que se tenha. Ao passo que dúvidas e perguntas abrem um horizonte infinito de possibilidades.

A segurança de se mergulhar nas águas tranqüilas de nossas certezas, é garantia apenas de repetirmos os mesmos percursos. O que garante experimentarmos o novo, são as águas turbulentas de nossas indagações, inquietações e questionamentos.

Roberto Crema em sua obra “Pedagogia Iniciática”, nos diz: “Uma pessoa que recita uma ideologia, numa fidelidade cega a uma teoria ou método, é um ser estupidificado, totalmente previsível e vítima de suas próprias rotinas automáticas. Nesta via viciada e restrita, seguimos os trilhos e perdemos as trilhas. Morre o criador, vegeta a criatura, na carência de inovação, criatividade e originalidade.Todas as teorias e tecnologias foram produtos de um momento de visão, de escuta, de compreensão. Segui-los, automaticamente, de forma rotineira, não gera nenhuma escuta, nenhuma visão, nenhuma compreensão”

Em Educação não podemos pensar em metodologia e prática pedagógica rigidamente formulada, e sim em constante reformulações, constante reavaliações e recontextualizações, por seu caráter orgânico, vivo, dinâmico e mutável, em constante processo de readaptação e metamorfose. O que nela permanece é a constante busca por sua justa medida. Quanto mais se avança nesta busca, menos se autocopia, se faz clonagens e se apresenta mais diversidade.Como artistas da Educação, somos convidados dia a dia a reelaborar nosso caos interior, fonte de energia e criatividade.
Abraço
Ana Lúcia Machado

segunda-feira, 21 de março de 2011

Um novo olhar

Recentemente assisti o filme "Como estrelas na Terra", uma produção de 2007 do diretor indiano Aamir Khan. O filme conta a história de um menino que sofre de dislexia. Relata seu sofrimento na escola, entre amigos e no ambiente familiar. Até o dia em que um professor substituto de Artes entra em sala de aula e olha para o menino. Com um olhar sensível e um plano pedagógico, ele consegue resgatar a alegria de viver do menino e sua vontade de aprender.

Ao ver o filme me perguntei: qual a linha pedagógica desse professor? Sócio-construtivista? Sócio-interacionista? Montessoriana ou Waldorf?
A linha pedagógica praticada por esse professor é a Pedagogia do Amor. Um tipo de abordagem milenar, idealizada e difundida por Jesus Cristo, que em toda sua trajetória de vida mostrou compaixão e ofereceu um olhar atento e individualizado à todos que dele se aproximavam.

A história do menino Ishaan muito me fez lembrar uma frase de Goethe: "Trate um homem como ele é e ele permanecerá como é; trate-o como ele deve ser e ele será como pode e deve ser" e outra de José Saramago no Ensaio sobre a cegueira, "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."

Qual a qualidade do olhar daqueles que educam as crianças? Certas crianças encontram-se prisioneiras de um olhar cristalizado e estigmatizante. Um olhar viciado, que enxerga as mesmas coisas sempre.

O olhar que alcança a essência da criança é o tipo de olhar fluídico, aquele que não se fixa em um único ponto, é penetrante e tem longo alcance. O olhar que enxerga a necessidade da criança é um olhar livre de preconceitos, que se renova a cada dia, criando uma nova possibilidade de vir a ser.

Assim Cristo olhava seus discípulos, com um olhar profético, tipo de olhar que alcança o futuro, independente das circunstâncias adversas do momento presente. Um olhar que vê além das aparências e comportamento em si. Esse é o olhar crístico que devemos almejar. Assistam o filme. Vale muito a pena.

"Aquele que muda de olhar, muda de mundo." (Jean-Yves Leloup)

Em tempo: Bendito sejam os professores substitutos que chegam como uma possibilidade de renovação do olhar para individualidades ofuscadas e imprimem uma dinâmica diferenciada para o coletivo!

Boas reflexões, abraço
Ana Lúcia Machado

sexta-feira, 18 de março de 2011

"Clarear" na Casa de Livros

Mais uma opção para a facilidade de quem deseja adquirir o livro "Clarear -a pedagogia Waldorf em debate".
Agora disponível na Livraria Casa de Livros - Rua Capitão Otávio Machado, 259 na Chácara Sto. Antonio SP-SP - tel. 5185-427

Abraço
Ana Lúcia Machado

terça-feira, 15 de março de 2011

"Clarear" agora em Bauru

O livro "Clarear - a pedagogia Waldorf em debate" já pode ser adquirido na loja Pula-Pula Brinquedos Criativos em Bauru
Rua Antonio Garcia, 241 Vila Santa Tereza
Para maiores informações ligue para (14)3227 7502

Abraço
Ana Lúcia Machado

sexta-feira, 11 de março de 2011

Escola Waldorf pública - parte II

Este é um pequeno relato sobre a história das escolas Waldorf públicas de Nova Friburgo, seguido de uma entrevista com a Profª Talita Melone da Escola Municipal Cecília Meireles:

A primeira escola surgiu como um projeto social sem vínculo com a pedagogia Waldorf em 1991, por meio da atuação do casal de educadores e artistas Tião Guerra e Mariane Canella junto às crianças da zona rural da cidade.

A partir de 1993 a pedagogia Waldorf é adotada pela escola com o apoio da Profª Lúcia Casoy e Mara Rúbia Ribeiro (1996). Somente em 1996 a escola conseguiu o convênio com a prefeitura passando a denominar-se Escola Comunitária Municipal Vale de Luz.
Em 2000 expandiu sua atuação para um bairro da cidade, e em 2004 estabeleceu-se como uma escola pública emancipada: a Escola Municipal Cecília Meireles.

Pessoas como Hermman Kriebel, Gertrudes Benckendorf, Gisela Dungs e Rudolf Lanz, muito trabalharam ao longo de anos, no estabelecimento das bases e na condução da escola para o caminho da pedagogia Waldorf.

Hoje são mais de 300 crianças atendidas em período integral, que vão do Jardim até o 5° ano do Ensino Fundamental. As duas escolas foram premiadas. Em 2008 com o Prêmio Fundo Itaú de Excelência Social (FIES) e em 2009 pelo Instituto HSBC Solidariedade. Por meio do Centro de Formação e Desenvolvimento, também ligado às duas escolas através da Associação Mantenedora Crianças do Vale de Luz , são mantidos um Seminário de Pedagogia Waldorf e cursos para professores da Rede Pública Municipal , o Café Pedagógico, que também já tem sua extensão na cidade mineira de Ubá.

Talita Melone, professora de uma turma de 1.° ano da Escola Municipal Cecília Meireles, fala um pouco dessa trajetória:

Como é a relação da Escola com a Prefeitura?
A parceria com a Prefeitura Municipal de Nova Friburgo (PMNF) é fundamental para a sustentabilidade das duas Escolas Waldorf Públicas . Hoje, através da Secretaria Municipal de Educação, a PMNF é responsável por 60% do financiamento das atividades das escolas, cobrindo parte do quadro de profissionais, material pedagógico e merenda escolar.

Foi preciso de alguma maneira se ajustar ao modelo da prefeitura? A proposta curricular Waldorf foi e é apresentada sempre que necessário às novas equipes da Secretaria Municipal de Educação. Um longo trabalho de comparação e cruzamento entre as propostas curriculares - pública e waldorf - é feito e apresentado.

Em relação ao currículo foi preciso abrir mão de algo ou absorver parte do currículo municipal? Sim. Atualmente convivemos com duas exigências por parte do poder público que nos faz ter que adequar-nos ao currículo da municipal: a entrada dos alunos com 6 anos incompletos no 1º ano escolar, e as avaliações através da Prova Brasil. Sendo assim, temos que reestruturar o trabalho com as classes, sempre visando a preservação ao máximo daquilo que consideramos vital para o desenvolvimento sadio dos alunos.

Em relação a gestão da escola, a Prefeitura exerce algum tipo de controle?A gestão das escolas segue a proposta de que professores devem atuar nas mesmas, como em qualquer escola Waldorf. Temos os responsáveis legais pelas escolas que fazem a ponte entre as mesmas e a Secretaria Municipal de Educação; seguimos as exigências e recebemos o apoio dados à todas as demais escolas da rede municipal de ensino.Temos em nossos convênios, a autonomia pedagógica, que nos permite manter a nossa identidade dentro dos preceitos da organização municipal do momento.

Quais as dificuldades enfrentadas por uma escola pública Waldorf? As mesmas das escolas waldorf do mundo e públicas do "terceiro mundo", só que somadas às exigências feitas pelos órgãos governamentais, captação de recursos, baixa remuneração dos profissionais, jornada tripla de muitos professores. Se somam os desafios diários com pais, que anseiam ter na escola Waldorf , muitas vezes a “cura” para as questões de seus filhos e não se vêem como principais sujeitos do processo.

Quais os maiores desafios? A remuneração dos profissionais e ampliação da oferta pedagógica (até o 8º ano), que estão intimamente vinculadas. Nas nossas escolas temos profissionais muito dedicados, e que como sabemos no meio “waldorf” a dedicação vai muito além do tempo presente fisicamente com os alunos ou na escola. E infelizmente o retorno financeiro não abrange tamanho empenho. Na Escola Cecília Meireles temos como desafio e meta manter nossos alunos até o fim do Ensino Fundamental.

Como os pais da rede pública recebem a PW? Como somos escolas públicas Waldorf e de período integral, temos no nosso público a procura dividida para esses dois quesitos. Mas o que com certeza faz com que os pais mantenham seus filhos nas escolas é a qualidade pedagógica oferecida. Há inúmeros casos de pais que se identificam tanto com a Pedagogia Waldorf, que acabam se aproximando deste universo e apoiando as escolas através de grupos de trabalho nas escolas, fazendo a formação e continuando a apoiar mesmo depois que os seus filhos saem das escolas. Outro ponto positivo na relação com os pais, é a interação social entre as famílias e alunos de diversas camadas sociais e culturais. Nas escolas recebemos alunos para a escola pública e gratuita. Porém é crescente o número de famílias que entendem e atendem as necessidades específicas da Pedagogia Waldorf - como material pedagógico - e contribuem com estes materiais financeiramente, para os seus e para os filhos dos outros.

Como os alunos assimilam a mudança na abordagem pedagógica após a saída ao término do 5° ano? É feito algum trabalho visando facilitar essa mudança? O Trabalho é feito sempre. Na Escola Cecília Meireles já constatamos que os alunos que saem da escola no final do 1º segmento do Ensino Fundamental (5º ano), com um bom desenvolvimento cognitivo, emocional e social, tem as mesmas ou até maiores capacidades dos demais alunos das outras escolas. Aqueles que possuem dificuldades de aprendizagem, quando não são superadas, levam em sua bagagem todas as outras habilidades conquistadas. Capacidades são desenvolvidas, o que não que dizer que são os mesmos e exatos conteúdos e das mesma forma. Inserimos à maneira e criatividade de cada professor as possíveis e necessárias adequações, como as avaliações e notas. A adaptação maior é em relação forma, mas o anseio por aprender permanece.

Abraço,
Ana Lúcia Machado

quinta-feira, 3 de março de 2011

Reflexões sobre a palestra de Christopher Clouder

Quero expressar minha intenção ao postar logo no início deste blog a palestra do prof° Clouder. Após ter finalizado “Clarear”, encontrei-a no site da FEWB. Já na primeira leitura fui impactada e fiquei admirada ante a similaridade existente entre as idéias ali expostas e o conteúdo de “Clarear”.

Ao término da palestra, o prof° Clouder coloca que: “o mundo clama por novos caminhos e o grande desafio é trabalharmos juntos, com os diversos grupos”. As histórias relatadas em “Clarear” são um clamor por renovação e pela abertura para a troca com o mundo.

Bebi entusiasmaticamente cada palavra e idéia de Clouder, pois compreendo a urgência na leitura correta desta criança que se apresenta ao mundo nos dias de hoje.

Nas palavras do prof° Clouder, “temos que virar do avesso a aprendizagem através da experimentação do que o mundo está fazendo”. Ele cita como exemplo o trabalho de jovens de uma turma de 9° ano com a produção de um filme. Em uma entrevista à Folha Online em julho de 2010, ele diz que em outros países as escolas Waldorf já estão introduzindo o computador no ensino fundamental.

É certo que a flexibilidade está sendo uma qualidade muito desejada na prática pedagógica atual. Apesar da Pedagogia Waldorf propor um modelo diferenciado de escola, não está imune ao risco de cair na mesmice. Não devemos insistir em práticas que já se esgotaram em si mesmas e que aos olhos da criança já não tem sentido.

O caminho que se abre diante de nós para nos reinventarmos e darmos início a uma nova jornada é o do autoconhecimento e autoeducação. Clouder cita para minha surpresa e alegria, um de nossos maiores educadores, Paulo Freire, dizendo que somos seres inacabados, seres em transformação.

Pessoas que participaram do encontro com Clouder, contam que em sua passagem por São Paulo, ele visitou a Escola Casa Redonda, uma escola referência para aqueles que buscam um novo modelo de educação, que fica em Carapicuíba, fundada a 25 anos pela pedagoga Maria Amélia Pereira. Esta abertura para a troca com outras abordagens pedagógicas é fundamental rumo à busca de novas possibilidades, tão almejadas por nossas crianças.

Abraço,
Ana Lúcia Machado

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Quando tudo dá errado - por Sandra Seabra Moreira

Este post é do blog http://sonhesustentavel.zip.net, da jornalista e pedagoga Sandra Seabra Moreira. Nele ela discorre de forma inspiradora sobre o exercício da maternidade. Fala sobre o significado do Seminário de Formação de Professores Waldorf em sua vida e sua experiência como mãe em uma escola Waldorf. Um texto rico e instigante que merece toda atenção.


Quando tudo dá errado

Clarear - A Pedagogia Waldorf em Debate, livro de Ana Lúcia Machado disponível no link (lá embaixo), me fez pensar muito. Há sempre muitas maneiras de se ver as coisas. Clarear traz visões e perguntas de pais que se viram em apuros e o blog de Ana Lúcia se propõe a debater todas as outras visões que surgirem a partir da leitura do livro. É uma iniciativa importante, justamente quando os pensadores da Pedagogia Waldorf alardeam a necessidade de diálogo com todas as demais gentes de boa vontade, independentemente da pedagogia que praticam, em favor de uma infância mais digna e feliz.

Mas não foi só o livro que me fez pensar muito. As notícias que nos chegam diariamente e a experiência pessoal me fazem recordar constantemente a impotência de professores e nossa - dos pais - diante das crianças e jovens. Ao longo de uns vinte e tantos anos, ouvi inúmeras vezes de professores - muitas mesmo, e na verdade, mais do que eu gostaria de ter ouvido - a seguinte frase: "Não sabemos o que fazer com o seu filho".

Mais ou menos eu soube o que fazer com os meus filhos: alimentar, abraçar, orientar, beijar, dar bronca, mandar fazer o dever, fazer o dever junto de vez em quando, conversar, às vezes ignorar, levar no cinema e na livraria, passear no parque e na casa da avó, rezar junto. Enfim, como mãe tudo funciona intuitivamente, ou pelo menos, deveria ser assim. Raras vezes, enquanto eram crianças, me senti impotente diante dos meus filhos. Mas tive de ceder muitas vezes, porque muitas vezes eles estavam com a razão. Na adolescência a situação muda um tanto. A casa vira um campo de batalha. E hoje me lembro de que, para cada sentimento de impotência que me assaltava, eu pensava: "isso não vai ficar assim". Às vezes ficava, às vezes não. Hoje em dia, ainda com filhos adolescentes, percebo que a experiência traz calma, mas não evita conflitos. A sensação de impotência é aliviada pela certeza de que, no final, tudo dá certo. Sim, eu sou otimista e isso ajuda muito, em tudo na vida.

Fui estudar a Pedagogia Waldorf. Para além da avaliação inevitável que se teima em fazer quando as teorias chegam depois da prática consumada, e até por essa teimosia em avaliar, o aprendizado foi imenso. Queria entender muitas coisas e, especialmente, queria saber o que era uma escola cristã. O assunto é vastíssimo e vou direto ao ponto:

Foi recentemente, em meados do ano, que ouvi de novo a frase: "Não sabemos o que fazer". É honesto posicionar-se dessa forma, se não sabem, não sabem, pensei. Porém, chegado o final do ano, a frase não foi: "Não soubemos o que fazer". Ao contrário, foi minha filha que não soube fazer. E eu, claro, errei em alguma coisa, certamente. Entendi, então, que havia algo errado também com essa postura humilde de "não saber o que fazer".

Em meio às questões que se assomam nos momentos de crise, me perguntei: "por que tudo deu errado?". Essa pergunta foi a chave para acessar a minha memória. Lembrei-me com perfeição de uma das incríveis aulas que assisti no curso de Pedagogia Waldorf. A mestra Luiza Lameirão falava a respeito das muitas dificuldades que o professor pode encontrar no caminho. Em dado momento, ela se reportou àquela situação em que o professor tem a sensação de já ter feito tudo, ter usado toda sua teoria, prática e experiência, e ainda assim, as coisas não dão certo com determinada criança. A sensação de verdadeira impotência a gerar desalento e desesperança. Ela comparou esse momento a uma profunda escuridão. Uma escuridão tão densa que provoca ou permite um ponto de virada, ou seja, a entrada da luz. Ao se sentir de mãos vazias, sem mais nada a oferecer, pode-se erguê-las ao mundo espiritual e pedir ajuda! Pode bem acontecer de as idéias surgirem, pode acontecer de toda a situação se inverter. A maioria de nós sabe que isso é possível.

Comecei a entender que não se trata de ter humildade e admitir que se está perdido. Entendi que se isso é fato, se se está perdido, não é para os pais, para a criança ou para os colegas de trabalho que se deve admitir. Mas principalmente para si mesmo. Para pais admitirem erros é até mais fácil, pois o amor para com os filhos impulsiona a transformação. Para professores, entretanto, é necessário mais do que humildade; talvez seja necessário um verdadeiro interesse, um sentimento que, infelizmente, facilmente torna-se vago e se perde em meio às metas, notas, "acordos". De resto, a frase que nos chega tão sincera - "não sabemos o que fazer" -é muito mais uma maneira de introduzir as más notícias do que propriamente um reconhecimento da incapacidade para lidar com a questão. Também não basta admitir que se precisa de ajuda de outros especialistas, porque talvez eles também não resolvam. Pior ainda é mostrar-se um profissional incapaz diante do aluno, o que raramente acontece, pois normalmente, na sala de aula, se evidencia muito mais a incapacidade do aluno do que a incapacidade do professor. Crianças e jovens que respeitam os professores dificilmente conseguem reverter essa situação.

É duro admitir o erro, esbarrar na escuridão. Por outro lado, ao se deparar com as próprias limitações e desassossego, ao se deparar com a própria incompetência, pode-se aperfeiçoar. Que incrível deve ser tornar-se um profissional bom o suficiente para se acercar daquela criança pela qual nada mais pode ser feito. Claro que não basta admitir. Conheço professores que estudam muito, recorrerem aos colegas mais experientes da própria escola ou de outras escolas que professam a mesma pedagogia, acreditam naquilo que os pais dizem do comportamento da criança ou jovem em casa, para conhecê-lo melhor. Acreditar. Talvez essa seja uma boa palavra. Acreditar nas pessoas ao redor, no belíssimo instrumental oferecido por Rudolf Steiner. E acreditar no mundo espiritual.

Eu poderia ter contribuído muito mais para a vida escolar dos meus filhos se os professores me ouvissem. E ouvir aqui é no sentido de acreditar e fazer uso das informações trazidas pelos pais. A maioria tem muito a contruibuir, para além das tarefas comunitárias e do trabalho de pagar escola, psicólogo, fono, massagista e terapeutas.

Imagino que essa é a grande diferença entre uma escola cristã e uma escola "normal". Entretanto, é muito difícil olhar para as próprias limitações. Por isso a pertinência de Clarear. E a disposição de muitos pais, ainda que já afastados das comunidades Waldorf, em debater. Jornada longa, mas imperdível.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Estamos a caminho

Este é um espaço de acolhimento, de compartilhar. Acolher o outro em sua dor, preocupação, decepção. Este é um espaço de discussão, troca de experiências boas ou ruins. Quem sabe juntos possamos descobrir um novo caminho? Agradeço a coragem e honestidade da ex-mãe Waldorf Cátia Benevenuto em seu comentário.

Em Clarear enfatizo a importância da obra do pedagogo europeu Heinz Zimmermann, "Forças que impulsionam a educação" por seu caráter contemporâneo e pela coragem do autor em desnudar as dificuldades e desafios do dia a dia do profissional da educação.

O comentário de Rosele Lima é muito pertinente: "Essa escola tem potencial". E o que se entende por potencial? "algo que precisa ser desenvolvido, não está pronto, pode ser mudado, melhorado".

Isso significa que estamos a caminho.
No livro de Zimmmermann isso fica muito claro. E fica claro também que temos que deixar para trás diretrizes convencionais e tradições desgastadas e ultrapassadas. E mais ainda, temos que nos abrir para o novo, fora do âmbito da comunidade Waldorf em aspectos comprovados de processos bem sucedidos em relação organizacional, na comunicação, no pedagógico.

Acho importantíssimo quando ele diz: "Precisamos ter a modéstia de reconhecer que ainda estamos no início do desenvolvimento da liberdade e, por isso, da formação de novas maneiras de trabalho conjunto. Isto vale para toda a Pedagogia Waldorf. As mais de 600 escolas existentes no mundo, o reconhecimento público, os 75 anos de fundação e de experiência não nos devem iludir quanto ao fato de estarmos bem no início e de termos um século de desenvolvimento futuro diante de nós.
O que podemos constatar muito nitidamente nos problemas do trabalho conjunto é o fato das diretrizes convencionais, ou forças quaisquer advindas da tradição estarem definidamente desgastadas. Só será produtivo e frutífero o que for empreendido pelos interessados a partir de iniciativa e conhecimento atuais. Também neste âmbito não deveríamos deixar de considerar conhecimentos não antroposóficos. Encontramos trabalhos excelentes de orientação prática sobre processos de comunicação e de organização social."

Em relação aos números acima citados devemos considerar que o livro foi editado em 1997.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Escola Waldorf pública

Recentemente por ocasião da tragédia ocorrida na região serrana do Rio de Janeiro, tomei conhecimento por meio de pedido de doações feitos pelo Dr. Darlan Schottz e pela Profª Talita Melone, que há duas escolas Waldorf que são públicas no município de Nova Friburgo: a Escola Comunitária Municipal do Vale de Luz, na área rural da cidade, e a Escola Municipal Cecília Meireles, na área urbana.

Tenho uma vaga lembrança, da época em que cursei o Seminário de Formação de Professores Waldorf, de um professor ter feito um comentário a respeito dessa escola.
Como conseguiram viabilizar essa escola pública? Por que essa iniciativa não se dissemina para outros estados brasileiros?

Afinal o impulso que originou a Escola Waldorf repousa sobre a classe operária. A Escola Waldorf nasceu com uma vocação social.

Temos em São Paulo o maravilhoso trabalho na Favela Monte Azul da educadora Ute Craemer, porém trata-se de um caso isolado aqui e acredito que não se classifique como escola pública e sim como uma ONG.

Por que após tanto tempo não se consegue expandir de maneira expressiva a Pedagogia Waldorf para além da classe burguesa?

Uma das preocupações apontadas em “Clarear” por pais de crianças de escolas Waldorf é em relação ao aspecto social. Eles questionam a escassez de crianças de camadas menos favorecidas em sala de aula e alertam para a necessidade de se trabalhar o olhar social dos alunos da elite que estão imersos num mundo de abastança, sem conhecer o que é privação sob nenhum aspecto. É preciso colocar na prática um currículo social verdadeiro.

Na palestra do prof° Christopher Clouder, já postada aqui, ele afirma que o propósito da Pedagogia Waldorf sempre foi o da atuação em escola pública e não particular.

Pois então, há um campo aberto e amplo de possibilidades de iniciativas e atuação.

O Dr. Darlan Schottz é diretor da Associação Crianças do Vale de Luz, mantenedora dessas escolas e é também médico escolar. A Profª Talita Melone trabalha na Escola Municipal Cecília Meireles.

Os interessados podem enviar doações para:
Banco Itaú
Agência 7672
Conta corrente 00409-5

Quem desejar um relato sobre a utilização da doação pode solicitar pelo email: acvluz@valedeluz.org.br

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Um nome em destaque no cenário atual da Pedagogia Waldorf

Christopher Clouder é um nome que se destaca atualmente por seu discurso pontual e assertivo. Suas palavras procuram despertar escolas e educadores e arrancá-los de sua zona de conforto:

“Se a preocupação é com a criança, precisamos realizar a nossa própria mudança individual como educadores. (...) Mas não devemos ficar interessados só em nós mesmos. (...) Para trazer humanização ao mundo, temos que trabalhar juntos, o que permite criar novos caminhos. E isso as crianças irão herdar.”

Com essa postura, o dirigente da Federação das Escolas Waldorf do Reino Unido e Irlanda, Christopher Clouder, palestrou mês passado na sede da Sociedade Antroposófica. Atento às políticas públicas e às diversas culturas, o enfoque da palestra foi a necessidade de mudança de comportamento. Não da criança, mas do educador. O encontro aconteceu por ocasião de sua visita ao Brasil para abertura do seminário da Aliança pela Infância, movimento mundial do qual é um dos fundadores. Tanto de manhã como à tarde, a linguagem contextualizada e poética do professor Clouder precedeu à oficina dirigida pela professora Kundry, residente nos EUA, que apresentou histórias, música e gestos do universo infantil.

Já de início, o conselheiro das escolas waldorf dos países da União Européia demonstrou o engajamento social imprescindível a todos. “Precisamos ter como cerne a consciência do mundo atual e os problemas que as crianças enfrentam, esperançosos de que futuramente, como adultos, não cometam os erros das gerações anteriores.” Falou assim após frisar a alegria que as crianças trazem aos nossos corações. Foi como se ele chegasse à sala, abrisse a janela para entrar a luz daquele sábado, sorrisse em direção ao céu azul e estendesse então a visão ao mundo. “Se olhamos demais as flores esquecemos a realidade”, advertiu logo.

É voz corrente que o desafio histórico da humanidade está em conviver. No meio pedagógico, isso significa aprofundar a integração entre alunos, professores, pais, escolas, culturas, bairros, estados, nações... Mas não adianta ir tão longe, se não começar pelo auto-conhecimento. É o que aponta o professor Clouder: “O desafio não está somente em perceber o que a criança está vivendo, mas, em realizar a nossa auto-transformação.” Lamentavelmente, a humanidade não assimilou ainda as palavras de Sócrates ditas há 400 a.C. e tantas vezes repetidas por Rudolf Steiner: Conhece-te a ti mesmo.

Como alerta o professor Clouder, “não podemos mais fugir de nossa própria mudança”. Assim, iniciou a palestra com as palavras do médico e escritor polonês Janusz Korczak, referindo-se a ele como um dos maiores pedagogos do século passado. “Aprenda a conhecer a si mesmo antes de conhecer as crianças.” E são elas as colaboradoras desse processo ao tecerem perguntas à nossa individualidade, aponta o professor. “Cabe a nós trazer as novas respostas que não estavam sendo ditas antes.”

Korczak foi assassinado na câmara de gás junto com as duzentas crianças de seu orfanato. É homenageado nos dias de hoje por pessoas ilustres como a escritora Tatiana Belinky e o professor Moacir Gadotti, diretor do Instituto Paulo Freire, que escreveu um ensaio intitulado “Janusk Korczak, o Precursor dos Direitos da Criança”.

Nesse ensaio, Moacir Gadotti conta que Korczak, levado pela paixão à criança, retornou à infância numa aventura sem precedentes na história da pedagogia. Gadotti referia-se à obra “Quando eu Voltar a ser Criança”, uma espécie de diário, lançado em 1981 pela editora Summus. O primeiro livro de Korczak, escrito em 1901, chama-se “Crianças da Rua”. Em 86, a editora Paz e Terra publicou “Como Amar uma Criança” e a editora Perspectiva, “Diário do Gueto”. Pelos títulos de sua obra dá para ter uma noção a qual infância ele dedicou sua vida. Eram crianças pobres de um gueto judeu de Varsóvia.

É preciso ter como que um pressentimento dos mistérios da vida (R. Steiner)

A partir das palavras de Korczak, o professor Clouder aponta a luz no fim do túnel. A luz está com as crianças. Korczak disse que deve ser permitido à criança ser o que ela é, não basta amá-la, é preciso respeitar e compreendê-la. Num breve histórico, o professor Clouder mostrou que o respeito às crianças é um sonho nunca na história realizado. Mas como bom educador não perde o otimismo e chama a atenção para a urgência de nossa época em tornar esse sonho realidade. “C ada criança traz alguma novidade das regiões divinas. Nossa tarefa é remover os obstáculos, entre estes a injustiça, que impedem o espírito de penetrar com liberdade na vida. A pessoa desconhecida dentro de cada criança precisa se manifestar, porque ela é a esperança do futuro.”

C omo ouvir esse ser desconhecido? Aprofundando a criatividade viva nas crianças e em nós, é o que se pode sintetizar da fala do professor Clouder. Ele apontou a necessidade de o educador estar atento ao que chama de espaço vazio. De acordo com ele, é onde e quando o educador pode penetrar, com o sentimento, na expressão livre e autêntica da criança, que se manifesta de muitas formas, mas sobretudo através da fantasia e da imaginação. “A criança usa a imaginação naturalmente. E nós temos que aprender com elas, com o brincar, a enxergar o mundo imaginativamente, mas de forma consciente.”

Por que é através da criatividade que se pode ouvir profundamente a criança? As palavras de Rudolf Steiner são elucidativas. Ele disse que um grão de semente não se reduz ao que é visível ao olho, pois abrange de modo invisível toda a planta futura. De acordo com o seu pensamento, devemos usar de nossa sensibilidade, fantasia e sentimentos para compreender de forma viva que a semente ultrapassa o que os sentidos nos transmitem. “É preciso termos como que um pressentimento dos mistérios da existência”, disse Steiner.

Se a postura apontada por Steiner deve ser essa em relação à planta, qual não deve ser a nossa sensibilidade para “compreender de forma viva” o que a criança traz! Não se trata de um processo intelectual. Conforme explicou o professor Clouder, o intelecto está sempre na superfície, nunca penetra na realidade como a fantasia pode fazer. “Esta pode até nos levar para lugar errado, mas está sempre enraizada na realidade.”

O relatório para a Unesco, elaborado pela Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, com o título “Educação para século XXI - um Tesouro a Descobrir”, também aborda a necessidade de ouvir com mais atenção a criança. Esse trabalho, conhecido como relatório Jacques Delors. dá ênfase ao aprender e não ao ensinar. “Aprender a aprender”, escreveu a comissão que reuniu especialistas de várias correntes pedagógicas. Como observa o professor Clouder, aprender com a criança não são apenas palavras do movimento waldorf, estão sendo ditas por diferentes educadores no mundo.

O relatório também alerta para a urgência de se dar especial atenção à imaginação: “Num mundo em mudança, onde um dos principais motores parece ser a inovação tanto social como econômica, deve ser dada importância especial à imaginação e à criatividade. Claras manifestações da liberdade humana, elas podem vir a ser ameaçadas por uma certa estandardização dos comportamentos individuais”.

Movimento renova a linguagem e avança

Seguindo a explanação do senhor Clouder, repleta de idéias de artistas, escritores, educadores e sobretudo de poesia, muita poesia, é fácil concluir que para acompanhar as mudanças de nossa época há de se possuir pelo menos uma dose da coragem de um Picasso, da persistência de um Samuel Beckett e da dinâmica de Paulo Freire, exemplos citados pelo professor. Picasso pintava na tela um vermelho e depois o retirava. Beckett é autor da frase: falhou não importa, falhe novamente, falhe de uma forma melhor. Ele, que escreveu a peça Esperando Godot, explorou o lado escuro da alma humana para descobrir o luminoso. E o pernambucano Paulo Freire, com sua simplicidade, disse que nós somos seres em transformação, por definição inacabados. “Para que sejamos temos de nos tornar.”

Tornar-se mais tolerante com nossos próprios erros e os dos outros é o caminho para a renovação. Sobre isso o professor Clouder também falou e não poupou nem ele mesmo, usando mais uma vez o verbo na primeira pessoa do plural: “Nós temos que aceitar a incerteza da vida moderna e assumir nossos próprios fracassos, porque sem isso não haverá aprendizagem.” Lembrou as palavras de Rudolf Steiner quando disse que se nós tratamos a educação como arte, temos que lidar também com as coisas feias. “Assim como não há evolução progressiva porque há a involução, também não há somente beleza do lado social”, comparou.

“Cultivar simplesmente a beleza seria um vôo para fora da realidade. As crianças devem confrontar o belo e o feio, saber viver no mundo a sua volta e não num mundo ilusório. Para isso, temos que estabelecer algumas concessões.” Em outro momento da palestra ele citou que uma turma do nono ano de uma escola waldorf na Noruega está fazendo um filme. “Temos de virar do avesso a aprendizagem através da experimentação do que o mundo está fazendo. É o que as novas gerações estão pedindo. Aí eles vão poder encontrar um contraponto.”

A flexibilidade desse dirigente que busca abrir novas escolas na antiga União Soviética e atua junto a entidades públicas e privadas no sentido de impulsionar a pedagogia foi o que permitiu recentes avanços. O Banco Santander na Espanha o convidou ao lado de outros estudiosos de prestígio a elaborar um estudo sobre educação baseado no conceito de inteligência emocional, popularizado por Daniel Goleman e que foca habilidades no relacionamento humano. Segundo o professor, esse convite aconteceu porque viram as escolas waldorf aplicando isso na prática em sala de aula, mas com outros nomes.

Outra conquista aconteceu no Reino Unido, onde até recentemente a pedagogia waldorf não havia recebido nenhum apoio do governo, restringindo-se lamentavelmente aos que podem pagar. No entanto, o professor conta que o atual ministro da educação de lá reconheceu que a pedagogia waldorf pode contribuir e anunciou publicamente um financiamento para inseri-la em escolas públicas. O professor enfatizou que o propósito da educação waldorf sempre foi atuar em escola pública. “O impulso waldorf não é escola particular.” Explica que esta existe como exemplo de escola, mas temos que desenvolver métodos que possam ser utilizados em outras escolas.

Um desses métodos que podem ser levados ao jardim de infância e às turmas de primeiro ano de qualquer escola foi vivenciado pelo público presente à palestra através do workshop dirigido pela senhora Kundry. São histórias curtas e músicas criadas a partir da vivência infantil com a natureza. Esse trabalho é fruto de uma pesquisa realizada por Wilma Ellersiek, originalmente em alemão, que a professora Kundry traduziu para o inglês e espanhol. A professora Chantal do jardim de infância Colibri, dois dias antes da palestra, traduziu para o português as músicas e histórias apresentadas, procurando criar novas rimas.

Esse trabalho traz um conteúdo importante não só pelas imagens como pela movimentação. Como explicou a professora Chantal, é através do movimento que as crianças aprendem e se relacionam com o mundo. Sons aparentemente sem sentido para o adulto acompanham o movimento que a criança realiza. Além disso, também são importantes a repetição e a alternância de ritmo, ora lento, ora acelerado, onde estão intrínsecas a contração e expansão, o que traz um respirar saudável.

Ao final, repetindo as palavras de Rudolf Steiner, o professor Clouder enfatizou que se nós conseguirmos trabalhar juntos com a mesma base espiritual atingiremos a união das nações. Garante que ao darmos as mãos e ouvir, as barreiras vêm abaixo. “O mundo clama por novos caminhos e o grande desafio é trabalhar juntos, com os diversos grupos.” Para as escolas, ele propõe a interação com os pais a ponto de eles verem o que o professor não foi capaz de fazer. Aceitar opinião de estagiários. Realizar tutoria, isto é, visita em classe de outros professores para troca de críticas e experiência. “Por isso modéstia”, frisou.
(Reportagem de Simoni Balilú)
http://www.federacaoescolaswaldorf.org.br/artigos/artclouder.htm