Pela visão ampliada do Ser Humano fundamentada na Antroposofia, são 12 os sentidos do homem apresentados por Rudolf Steiner (1861-1925) em sua Teoria dos Sentidos:
Sentido do Tato, vital, movimento próprio ou cinestésico, sentido do olfato, paladar, visão, térmico ou do calor, e ainda da audição, palavra, pensamento e eu.
Para quem se interessar por esse tema e quiser conhecê-lo com maior profundidade, indico o livro “O organismo Sensório – sua perda e seu cultivo” de Willi Aeppli, pois aqui abordarei brevemente apenas um dos sentidos - o sentido vital - que segundo Rudolf Steiner, é o sentido que permite a percepção do organismo como um todo e que é percebido pelo homem apenas quando algo nele não está em ordem em sua organização corpórea (mal estar). Para ressaltar um aspecto importante do sentido vital, apresento um texto extraído de um trabalho elaborado pela Dra. Sonia Setzer em 2000, que diz assim:
“A dor nos fornece uma orientação na vida: se caímos de uma escada, aprendemos a tomar cuidado para não cair outra vez. Nossa cultura tem a tendência de querer eliminar a dor. Não permitimos mais às crianças sentir cansaço físico, que não deixa de ser um tipo de dor; elas andam apenas de automóvel e não mais a pé ou de bicicleta. Acontece que esse tipo de cansaço é muito saudável. A pior forma de cansaço é aquela causada pelo tédio ou pelo excesso de impressões sensoriais. Basta comparar como nos sentimos depois de um dia de caminhada por campos e florestas ou um dia passado num parque de diversões ou shopping center.
Devemos ter em mente também que qualquer aprendizado depende de dor e cansaço, é um processo demorado, exaustivo, que requer esforço, repetição, e por isso também é doloroso. Em nossa vida cotidiana todavia, procuramos receber tudo o mais pronto possível, evitamos qualquer forma de esforço, buscamos a comodidade para nós, e também para as coitadinhas das crianças. Elas não deveriam sofrer, trabalhar, esforçar-se... Outra forma de dor é a dor da espera; queremos receber tudo imediatamente, não temos paciência, exigimos respostas imediatas e queremos ter logo todas as vontades satisfeitas. O mesmo aplica-se às crianças por nossa culpa. Elas precisam aprender a esperar; alguém ainda se lembra da expectativa, da espera ansiosa pelo aniversário, ou por aquela festa, ou a ânsia para que se possa finalmente realizar a viagem planejada há tanto tempo? Uma educação sem dor é semelhante à analgesia ou até mesmo à anestesia. Quem aprende a experimentar a dor “normal”, cotidiana, está preparado para suportar a dor do destino. Quem não teve a oportunidade de fortalecer-se com as dorzinhas “normais”, vai refugiar-se nas mais diversas “analgesias”: drogas, álcool, outros vícios, sexo, “fugas” do mundo, quando tiver que enfrentar as inevitáveis dores do destino. Por outro lado, onde não há vivência da dor, não pode surgir a compaixão. Jamais poderemos ajudar alguém que esteja sofrendo se não tivermos tido vivências dolorosas.”
Porque poupamos nossos filhos desses tipos de vivências: esforço físico, cansaço, frustrações, espera?
O que nós adultos, pais, vemos de tão negativo nesses sentimentos que nos levam a essa atitude em relação aos filhos?
Como podemos ensinar nossos filhos a tolerar as pequenas frustrações do dia a dia?
Como podemos auxiliá-los a enfrentar as situações de adversidades da vida?
A superproteção enfraquece e impede o desenvolvimento da autoproteção e de recursos próprios de resistência , o que chamo de uma criança sem pele. O confronto com as adversidades da vida fortalecem a vontade. A dor, frustração, espera, são necessárias e salutares para o processo de aprendizado e amadurecimento infantil. Através delas a criança tem a chance de desenvolver forças de resistências própria.No longa- metragem documentário de 2002 "Ser e Ter", o cinesta francês Nicholas Philibert apresenta uma escola comunitária localizada na zona rural da França onde vemos uma única sala com apenas um professor trabalhando com uma turma de crianças entre 3 e 11 anos. O documentário é bem interessante e há uma cena em que o professor sai com seus alunos para uma caminhada, um passeio ao ar livre. Pelos prados podemos ver as crianças super agasalhadas num dia muito frio. Uma cena bem bucólica!
Uma amiga que foi viver por uns tempos em uma cidade pequena na Inglaterra, relatou assim que chegou que, na escola a professora de sua filha caçula saia todas as manhãs com as crianças para uma caminhada, independente da temperatura externa.
Lembro-me quando minha filha ainda estava no Jardim, que sua professora intentou uma atividade assim com as crianças, porém o medo que assola constantemente quem vive nas grandes metrópoles, impediu que tal intenção se concretiza-se. Romper os muros da escola não é tarefa fácil, mas devemos tentar.
abraço fraterno
Ana Lúcia Machado