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sexta-feira, 15 de março de 2013

BRINCADEIRAS INFANTIS


Sempre tenho  vários livros na minha cabeceira.  Degusto um pouquinho aqui, outro pouquinho ali. Nunca falta a poesia, ora Fernando Pessoa, ora Hilda Hilts, entre outros. Passeio por romances, crônicas, etc.  Acabo de ler  “Minha vida de menina” de Helena Morley, pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant (1880-1970). 

Tendo como pano de fundo o Brasil  pós  abolição da escravatura e proclamação da República, Helena narra seu dia-a-dia em sua cidade natal, Diamantina, entre 1893 e 1895. O livro foi publicado pela primeira vez em 1942. Através do diário da adolescente, tomamos conhecimento sobre os costumes da sociedade da época, a estrutura familiar e todo o universo que cerca essa garota, com seus conflitos, temores e sonhos.

Em 2004 o livro foi adaptado para o cinema e dirigido por Helena Solberg. Foi assim que descobri o livro. Fiz o inverso do que estou habituada a fazer: primeiro vi o filme. Gosto de criar as minhas próprias imagens para depois  me expor às imagens construídas por terceiros. Mas isso não vem ao caso.

O que pretendo compartilhar e comentar aqui, é um trecho do livro que me chamou muito a atenção. Certa vez Helena sofreu uma queda de um cavalo e machucou o joelho, o que lhe obrigou a ficar em repouso, presa dentro de casa. Com relação a este episódio, ela tece o seguinte comentário: “Como é horrível ficar presa num rancho, sabendo que há tanta coisa boa para a gente fazer! Quando eu penso que podia estar no córrego pescando ou mesmo atrás das frutas do mato, dos ninhos de passarinho, armando arapuca e tudo...” Ela continua a se lamentar e diz que só voltará  a se sentir feliz quando estiver novamente lá fora.

Passados aproximadamente 117 anos, quanta coisa mudou! Não poderia ser diferente. Mas constatar que hoje a realidade de nossas crianças é completamente oposta, causa-me espanto. Atualmente nossas crianças não sabem mais o que  fazer do lado de fora. Não apenas as crianças que vivem nos grandes centros urbanos. E  mesmo essas, em férias no campo ou na praia, não conseguem explorar todas as possibilidades que o mundo fora de casa  pode proporcionar.

Apesar de morar em São Paulo, vivi minha infância num tempo que ainda era possível brincar na rua. Andávamos de bicicleta, brincávamos de pega-pega, esconde-esconde, duro ou mole, queimada, etc...tudo na rua.

A crescente violência  aos poucos fez com que levantássemos muros, nos isolássemos. Com o tempo vários fatores modificaram os brinquedos e as brincadeiras infantis. Hoje uma criança que machuque uma perna, não se importará com isso tanto quanto Helena Morley.  A criança de hoje lamentará na mesma proporção que Helena, se ferir seus olhos ou mãos.    

Não se trata de saudosismo, quero apenas destacar a necessidade de equilíbrio entre o dentro e fora. Quero ressaltar também a importância da busca por uma vida mais integrada à natureza.

A tela do pintor holandês Pieter Bruegel (1525-1569)  intitulada “Brincadeiras Infantis” mostra muitas crianças brincando. Rubem Alves, poeta, filósofo brasileiro, diz que já enumerou 60 brincadeiras nesse quadro. A maioria das brincadeiras de Bruegel, são do lado de fora.

Que possamos nos inspirar e brincar!

Abraço fraterno,

Ana Lúcia Machado

 

 

segunda-feira, 2 de maio de 2011

EDUCAR - Rubem Alves



Eis alguns fragmentos deste extraordinário educador, Rubem Alves:

"Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado."

Cabe aqui a observação e depoimento da cineasta e roteirista Laís Bodanzky, diretora do filme brasileiro de 2010 "As melhores coisas do mundo". A cineasta rodou escolas particulares paulistanas como pesquisa para o filme e declarou as seguintes impressões:

"Notei como os jovens ficam a maior parte do tempo dentro da escola, ficam mais em contato com colegas e professores, do que com seus familiares. A escola é a família deles. Os pais vão trabalhar tranquilos porque sabem que seus filhos estão trancados em uma instituição que os protege. Por coincidência, a rotina da escola e sua arquitetura se assemelham à de um cárcere. Muros altos, vigias no portão, câmeras pelos quatro cantos, toque de recolher, momento de sol no pátio, corredores enormes, multidão indo para suas "celas" de aula. É dessa forma que eles são protegidos do mundo cruel e violento da cidade. Isolar para educar. Isolar para educar?"

Laís Bodanzki alerta para a necessidade de se educar os pais em primeiro lugar:
"Os pais acham que pagar caro já é o suficiente para a escola não encher o saco deles, que trabalham tanto, coitados. Os filhos são reflexo direto de seus pais, não fiz faculdade de psicologia para dizer isso, mas notei na minha pesquisa o quanto é explícito. Logo, para uma escola educar um aluno ela tem também que educar os pais do aluno, mas a escola tem medo de encarar os pais e educá-los. A escola deve preparar o aluno para se tornar um cidadão. Como explicar o que é cidadania se a escola esconde a cidade do aluno?

Ficam aí algumas boas perguntas para refletirmos.

Abraços
Ana Lúcia Machado