Clarear é uma proposta de reflexão e renovação da prática da pedagogia Waldorf. Relata a história de crianças que estudaram em escolas Waldorf e traz por meio de críticas e perguntas dos pais Waldorf a possibilidade de aprimoramento da prática pedagógica. Clarear convida pais, educadores, escolas para um grande balanço e revisão, para a construção de uma escola melhor.
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sábado, 7 de maio de 2016
10 livros para entender o método da Pedagogia Waldorf e muitas razões pela qual reconheço que atingi meu objetivo
Há muito tempo que não me expresso aqui neste blog, que foi criado para divulgar o livro "Clarear - A Pedagogia Waldorf em debate", e estimular a reflexão sobre a prática desta metodologia nas escolas Waldorf. Reconheço que este espaço cumpriu seu propósito. Este blog deu voz a muitos pais, professores, alunos e ex-alunos que quiseram compartilhar suas histórias, dúvidas e angústias. A discussão provocada pelo livro impulsionou algumas iniciativas, entre elas uma grande pesquisa promovida pela REWA - Reflexão sobre a Pedagogia Waldorf no Brasil que levantou muitos pontos a serem revistos pela comunidade. Fui chamada em vários momentos pela liderança deste movimento de renovação a participar de discussões, indicar pessoas para serem entrevistadas, etc...
O ano passado fui surpreendida ao fazer uma pesquisa na internet e descobrir que o livro CLAREAR foi selecionado entre 10 livros que ajudam a entender o método da Pedagogia Waldorf, pelo site Net Educação (http://neteducacao.com.br/noticias/home/pedagogia-waldorf-10-livros-para-entender-este-metodo-de-ensino). Como autora do livro, seminarista que fui no curso de formação de professores desta pedagogia e principalmente como mãe de duas crianças que estudaram nessa escola, saber que esta publicação alcançou este patamar de relevância me causa satisfação. Toda iniciativa é suscetível de críticas, aceitação e rejeição. E considerando todo o processo desde a publicação do livro, tenho a certeza que o mesmo cumpriu seu papel e tornou-se uma referência na área educacional.
Hoje meu filho mais velho, protagonista de uma das histórias do livro, está cursando Economia na USP, e percebo que nossa escolha pela mudança de linha pedagógica, foi uma decisão acertada. Cada ser tem necessidades individuais que precisam ser respeitadas, uma escola que é excelente para muitos, pode não ser a melhor para seu filho. Cabe a nós pais, estarmos atentos o tempo todo aos sinais que nossos filhos nos dão e termos a abertura para mudanças de percurso. Aproveito para mais uma vez agradecer aos pais que tornaram pública as histórias de seus filhos e também ao querido Professor Ruy César do Espírito Santo, educador de corpo e alma que acolheu calorosamente meu projeto e prefaciou o livro.
Para finalizar quero contar que brevemente darei início a um novo projeto que será compartilhado aqui, e na ocasião do lançamento você será meu convidado para seguir comigo um novo caminho. Se você desejar receber as informações em primeiríssima mão sobre meu novo projeto envie uma mensagem para: analucianaturalarte@yahoo.com.br
Gratidão e carinho
Ana Lúcia Machado
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Quando tudo dá errado - por Sandra Seabra Moreira
Este post é do blog http://sonhesustentavel.zip.net, da jornalista e pedagoga Sandra Seabra Moreira. Nele ela discorre de forma inspiradora sobre o exercício da maternidade. Fala sobre o significado do Seminário de Formação de Professores Waldorf em sua vida e sua experiência como mãe em uma escola Waldorf. Um texto rico e instigante que merece toda atenção.
Quando tudo dá errado
Clarear - A Pedagogia Waldorf em Debate, livro de Ana Lúcia Machado disponível no link (lá embaixo), me fez pensar muito. Há sempre muitas maneiras de se ver as coisas. Clarear traz visões e perguntas de pais que se viram em apuros e o blog de Ana Lúcia se propõe a debater todas as outras visões que surgirem a partir da leitura do livro. É uma iniciativa importante, justamente quando os pensadores da Pedagogia Waldorf alardeam a necessidade de diálogo com todas as demais gentes de boa vontade, independentemente da pedagogia que praticam, em favor de uma infância mais digna e feliz.
Mas não foi só o livro que me fez pensar muito. As notícias que nos chegam diariamente e a experiência pessoal me fazem recordar constantemente a impotência de professores e nossa - dos pais - diante das crianças e jovens. Ao longo de uns vinte e tantos anos, ouvi inúmeras vezes de professores - muitas mesmo, e na verdade, mais do que eu gostaria de ter ouvido - a seguinte frase: "Não sabemos o que fazer com o seu filho".
Mais ou menos eu soube o que fazer com os meus filhos: alimentar, abraçar, orientar, beijar, dar bronca, mandar fazer o dever, fazer o dever junto de vez em quando, conversar, às vezes ignorar, levar no cinema e na livraria, passear no parque e na casa da avó, rezar junto. Enfim, como mãe tudo funciona intuitivamente, ou pelo menos, deveria ser assim. Raras vezes, enquanto eram crianças, me senti impotente diante dos meus filhos. Mas tive de ceder muitas vezes, porque muitas vezes eles estavam com a razão. Na adolescência a situação muda um tanto. A casa vira um campo de batalha. E hoje me lembro de que, para cada sentimento de impotência que me assaltava, eu pensava: "isso não vai ficar assim". Às vezes ficava, às vezes não. Hoje em dia, ainda com filhos adolescentes, percebo que a experiência traz calma, mas não evita conflitos. A sensação de impotência é aliviada pela certeza de que, no final, tudo dá certo. Sim, eu sou otimista e isso ajuda muito, em tudo na vida.
Fui estudar a Pedagogia Waldorf. Para além da avaliação inevitável que se teima em fazer quando as teorias chegam depois da prática consumada, e até por essa teimosia em avaliar, o aprendizado foi imenso. Queria entender muitas coisas e, especialmente, queria saber o que era uma escola cristã. O assunto é vastíssimo e vou direto ao ponto:
Foi recentemente, em meados do ano, que ouvi de novo a frase: "Não sabemos o que fazer". É honesto posicionar-se dessa forma, se não sabem, não sabem, pensei. Porém, chegado o final do ano, a frase não foi: "Não soubemos o que fazer". Ao contrário, foi minha filha que não soube fazer. E eu, claro, errei em alguma coisa, certamente. Entendi, então, que havia algo errado também com essa postura humilde de "não saber o que fazer".
Em meio às questões que se assomam nos momentos de crise, me perguntei: "por que tudo deu errado?". Essa pergunta foi a chave para acessar a minha memória. Lembrei-me com perfeição de uma das incríveis aulas que assisti no curso de Pedagogia Waldorf. A mestra Luiza Lameirão falava a respeito das muitas dificuldades que o professor pode encontrar no caminho. Em dado momento, ela se reportou àquela situação em que o professor tem a sensação de já ter feito tudo, ter usado toda sua teoria, prática e experiência, e ainda assim, as coisas não dão certo com determinada criança. A sensação de verdadeira impotência a gerar desalento e desesperança. Ela comparou esse momento a uma profunda escuridão. Uma escuridão tão densa que provoca ou permite um ponto de virada, ou seja, a entrada da luz. Ao se sentir de mãos vazias, sem mais nada a oferecer, pode-se erguê-las ao mundo espiritual e pedir ajuda! Pode bem acontecer de as idéias surgirem, pode acontecer de toda a situação se inverter. A maioria de nós sabe que isso é possível.
Comecei a entender que não se trata de ter humildade e admitir que se está perdido. Entendi que se isso é fato, se se está perdido, não é para os pais, para a criança ou para os colegas de trabalho que se deve admitir. Mas principalmente para si mesmo. Para pais admitirem erros é até mais fácil, pois o amor para com os filhos impulsiona a transformação. Para professores, entretanto, é necessário mais do que humildade; talvez seja necessário um verdadeiro interesse, um sentimento que, infelizmente, facilmente torna-se vago e se perde em meio às metas, notas, "acordos". De resto, a frase que nos chega tão sincera - "não sabemos o que fazer" -é muito mais uma maneira de introduzir as más notícias do que propriamente um reconhecimento da incapacidade para lidar com a questão. Também não basta admitir que se precisa de ajuda de outros especialistas, porque talvez eles também não resolvam. Pior ainda é mostrar-se um profissional incapaz diante do aluno, o que raramente acontece, pois normalmente, na sala de aula, se evidencia muito mais a incapacidade do aluno do que a incapacidade do professor. Crianças e jovens que respeitam os professores dificilmente conseguem reverter essa situação.
É duro admitir o erro, esbarrar na escuridão. Por outro lado, ao se deparar com as próprias limitações e desassossego, ao se deparar com a própria incompetência, pode-se aperfeiçoar. Que incrível deve ser tornar-se um profissional bom o suficiente para se acercar daquela criança pela qual nada mais pode ser feito. Claro que não basta admitir. Conheço professores que estudam muito, recorrerem aos colegas mais experientes da própria escola ou de outras escolas que professam a mesma pedagogia, acreditam naquilo que os pais dizem do comportamento da criança ou jovem em casa, para conhecê-lo melhor. Acreditar. Talvez essa seja uma boa palavra. Acreditar nas pessoas ao redor, no belíssimo instrumental oferecido por Rudolf Steiner. E acreditar no mundo espiritual.
Eu poderia ter contribuído muito mais para a vida escolar dos meus filhos se os professores me ouvissem. E ouvir aqui é no sentido de acreditar e fazer uso das informações trazidas pelos pais. A maioria tem muito a contruibuir, para além das tarefas comunitárias e do trabalho de pagar escola, psicólogo, fono, massagista e terapeutas.
Imagino que essa é a grande diferença entre uma escola cristã e uma escola "normal". Entretanto, é muito difícil olhar para as próprias limitações. Por isso a pertinência de Clarear. E a disposição de muitos pais, ainda que já afastados das comunidades Waldorf, em debater. Jornada longa, mas imperdível.
Quando tudo dá errado
Clarear - A Pedagogia Waldorf em Debate, livro de Ana Lúcia Machado disponível no link (lá embaixo), me fez pensar muito. Há sempre muitas maneiras de se ver as coisas. Clarear traz visões e perguntas de pais que se viram em apuros e o blog de Ana Lúcia se propõe a debater todas as outras visões que surgirem a partir da leitura do livro. É uma iniciativa importante, justamente quando os pensadores da Pedagogia Waldorf alardeam a necessidade de diálogo com todas as demais gentes de boa vontade, independentemente da pedagogia que praticam, em favor de uma infância mais digna e feliz.
Mas não foi só o livro que me fez pensar muito. As notícias que nos chegam diariamente e a experiência pessoal me fazem recordar constantemente a impotência de professores e nossa - dos pais - diante das crianças e jovens. Ao longo de uns vinte e tantos anos, ouvi inúmeras vezes de professores - muitas mesmo, e na verdade, mais do que eu gostaria de ter ouvido - a seguinte frase: "Não sabemos o que fazer com o seu filho".
Mais ou menos eu soube o que fazer com os meus filhos: alimentar, abraçar, orientar, beijar, dar bronca, mandar fazer o dever, fazer o dever junto de vez em quando, conversar, às vezes ignorar, levar no cinema e na livraria, passear no parque e na casa da avó, rezar junto. Enfim, como mãe tudo funciona intuitivamente, ou pelo menos, deveria ser assim. Raras vezes, enquanto eram crianças, me senti impotente diante dos meus filhos. Mas tive de ceder muitas vezes, porque muitas vezes eles estavam com a razão. Na adolescência a situação muda um tanto. A casa vira um campo de batalha. E hoje me lembro de que, para cada sentimento de impotência que me assaltava, eu pensava: "isso não vai ficar assim". Às vezes ficava, às vezes não. Hoje em dia, ainda com filhos adolescentes, percebo que a experiência traz calma, mas não evita conflitos. A sensação de impotência é aliviada pela certeza de que, no final, tudo dá certo. Sim, eu sou otimista e isso ajuda muito, em tudo na vida.
Fui estudar a Pedagogia Waldorf. Para além da avaliação inevitável que se teima em fazer quando as teorias chegam depois da prática consumada, e até por essa teimosia em avaliar, o aprendizado foi imenso. Queria entender muitas coisas e, especialmente, queria saber o que era uma escola cristã. O assunto é vastíssimo e vou direto ao ponto:
Foi recentemente, em meados do ano, que ouvi de novo a frase: "Não sabemos o que fazer". É honesto posicionar-se dessa forma, se não sabem, não sabem, pensei. Porém, chegado o final do ano, a frase não foi: "Não soubemos o que fazer". Ao contrário, foi minha filha que não soube fazer. E eu, claro, errei em alguma coisa, certamente. Entendi, então, que havia algo errado também com essa postura humilde de "não saber o que fazer".
Em meio às questões que se assomam nos momentos de crise, me perguntei: "por que tudo deu errado?". Essa pergunta foi a chave para acessar a minha memória. Lembrei-me com perfeição de uma das incríveis aulas que assisti no curso de Pedagogia Waldorf. A mestra Luiza Lameirão falava a respeito das muitas dificuldades que o professor pode encontrar no caminho. Em dado momento, ela se reportou àquela situação em que o professor tem a sensação de já ter feito tudo, ter usado toda sua teoria, prática e experiência, e ainda assim, as coisas não dão certo com determinada criança. A sensação de verdadeira impotência a gerar desalento e desesperança. Ela comparou esse momento a uma profunda escuridão. Uma escuridão tão densa que provoca ou permite um ponto de virada, ou seja, a entrada da luz. Ao se sentir de mãos vazias, sem mais nada a oferecer, pode-se erguê-las ao mundo espiritual e pedir ajuda! Pode bem acontecer de as idéias surgirem, pode acontecer de toda a situação se inverter. A maioria de nós sabe que isso é possível.
Comecei a entender que não se trata de ter humildade e admitir que se está perdido. Entendi que se isso é fato, se se está perdido, não é para os pais, para a criança ou para os colegas de trabalho que se deve admitir. Mas principalmente para si mesmo. Para pais admitirem erros é até mais fácil, pois o amor para com os filhos impulsiona a transformação. Para professores, entretanto, é necessário mais do que humildade; talvez seja necessário um verdadeiro interesse, um sentimento que, infelizmente, facilmente torna-se vago e se perde em meio às metas, notas, "acordos". De resto, a frase que nos chega tão sincera - "não sabemos o que fazer" -é muito mais uma maneira de introduzir as más notícias do que propriamente um reconhecimento da incapacidade para lidar com a questão. Também não basta admitir que se precisa de ajuda de outros especialistas, porque talvez eles também não resolvam. Pior ainda é mostrar-se um profissional incapaz diante do aluno, o que raramente acontece, pois normalmente, na sala de aula, se evidencia muito mais a incapacidade do aluno do que a incapacidade do professor. Crianças e jovens que respeitam os professores dificilmente conseguem reverter essa situação.
É duro admitir o erro, esbarrar na escuridão. Por outro lado, ao se deparar com as próprias limitações e desassossego, ao se deparar com a própria incompetência, pode-se aperfeiçoar. Que incrível deve ser tornar-se um profissional bom o suficiente para se acercar daquela criança pela qual nada mais pode ser feito. Claro que não basta admitir. Conheço professores que estudam muito, recorrerem aos colegas mais experientes da própria escola ou de outras escolas que professam a mesma pedagogia, acreditam naquilo que os pais dizem do comportamento da criança ou jovem em casa, para conhecê-lo melhor. Acreditar. Talvez essa seja uma boa palavra. Acreditar nas pessoas ao redor, no belíssimo instrumental oferecido por Rudolf Steiner. E acreditar no mundo espiritual.
Eu poderia ter contribuído muito mais para a vida escolar dos meus filhos se os professores me ouvissem. E ouvir aqui é no sentido de acreditar e fazer uso das informações trazidas pelos pais. A maioria tem muito a contruibuir, para além das tarefas comunitárias e do trabalho de pagar escola, psicólogo, fono, massagista e terapeutas.
Imagino que essa é a grande diferença entre uma escola cristã e uma escola "normal". Entretanto, é muito difícil olhar para as próprias limitações. Por isso a pertinência de Clarear. E a disposição de muitos pais, ainda que já afastados das comunidades Waldorf, em debater. Jornada longa, mas imperdível.
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